O estrangulador
Sidney Sheldon
traduo: A. B. Pinheiro de Lemos.
Record - So Paulo
1998.
CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Sheldon, Sidney, 1917
S548e O estrangulador / Sidney Sheldon; traduo
A. B. Pinheiro de Lemos. - 3a ed. - Rio de Janeiro:
Record, So Paulo- tica (Distribuidor), 1998.
Traduo de: The strangler
Literatura infanto-juvenil. I. Lemos, A. B. Pinheiro de (Alfredo Barcelos Pinheiro de),
O ESTRANGULADOR
Ttulo original norte-americano THE STRANGLER
 ***
Nota
Este livro foi scaneado e corrigido por Airton Simille Marques e Josu Matias C. Junior;
para uso exclusivo de deficientes visuais, de acordo com as leis
de direitos autorais.
Numerao das pginas: rodap.
****
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Impresso no Brasil
EDITORA AFILIADA
Captulo Um
O estrangulador estava  solta nas ruas de Londres. At agora, j matara seis
mulheres, e a polcia se mostrava frentica. O medo dominava a cidade.
Os jornais de Londres, como no podia deixar de ser, quase no falavam de outra
coisa. As manchetes bradavam:
QUANDO O ESTRANGULADOR ATACAR DE NOVO?
LONDRES DOMINADA PELO TERROR
O QUE FAZ A POLCIA PARA DAR SEGURANA S MULHERES?
A Scotland Yard recebia centenas de telefonemas, as pessoas querendo saber quais
as providncias da polcia para capturar o assassino. Havia ligaes desesperadas.
- H um estranho no meu quintal!
- Acho que algum vem olhar pela janela do meu quarto  noite!
- Meu vizinho parece um assassino. Poderia ser o estrangulador.
- Devo comprar um co de guarda?
O inspetor West, da Scotland Yard, fora encarregado do caso do estrangulador. Era
o mais difcil de sua carreira. No havia pistas. Absolutamente nenhuma!
- Inspetor, o comissrio est na linha-avisou sua secretria.
O inspetor West j recebera meia dzia de telefonemas do comissrio, que era o
chefe da polcia. Tentara explicar que vinha fazendo tudo o que era possvel.
Levara peritos em impresses digitais para os locais dos crimes, mas o assassino no
deixara nenhuma impresso. Levara ces da polcia na tentativa de encontrar a trilha
do assassino, mas tambm fora intil. Falara com informantes da polcia, na
esperana de que algum pudesse lhe oferecer uma indicao que levasse ao
assassino, mas ningum fora capaz de ajudar.
O assassino era um homem misterioso, que matava suas vtimas e desaparecia sem
deixar qualquer vestgio. O inspetor West pegou o telefone e disse:
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- Bom dia, comissrio.
- O que est acontecendo, inspetor? Precisa fazer alguma coisa. Tem idia da
presso que venho sofrendo? Os jornais esto me levando  loucura, fazendo com
que pareamos idiotas. A prpria rainha me ligou esta manh. Ouviu isso? A rainha!
Quer saber o que estamos fazendo para pegar esse louco.
- Estamos fazendo tudo...
- No  suficiente. Quero resultados. As mulheres andam com medo de sair s
ruas. Ningum sabe onde o estrangulador atacar em seguida. No descobriu
nenhuma pista?
- Gostaria de dizer que sim mas no posso. O assassino ataca ao acaso. Mata suas
vtimas e desaparece. - Houve um silncio prolongado. - Comissrio, posso lhe
pedir um favor?
- Claro. Qualquer coisa que ajude a resolver o caso.
- Ouvi falar de um jovem sargento da polcia que j esclareceu muitos casos. Eu
gostaria que ele fosse transferido para o meu departamento.
- Como ele se chama?
- Sargento Sekio Takagi. Pode dar um jeito?
- Considere o pedido atendido. O sargento Takagi estar em sua sala dentro de uma
hora.
Exatamente uma hora depois, Sekio Takagi sentou na sala do inspetor West. Takagi
era jovem, bonito e muito polido.
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Seu pai era dono de uma pequena empresa de produtos eletrnicos e abrira uma
sucursal na Inglaterra. Esperava que o filho dirigisse a fbrica l. Mas o rapaz
sempre se interessara pelo crime.
- Quero ajudar as pessoas.
O pai ainda argumentara, mas fora em vo. Sekio Takagi podia ser muito obstinado
quando tomava uma deciso. Fora aceito na polcia e j elucidara meia dzia de
crimes.
A famlia sentia o maior orgulho de Sekio. A me, no entanto, se preocupava.
- Filho, seu trabalho no  perigoso?
- Pode ter certeza, me, que sou muito cuidadoso.
A verdade era que tinha mesmo um trabalho perigoso. Pela tradio da Inglaterra, os
policiais nunca andavam armados. E no se esperava que os criminosos dispusessem
de armas de fogo. Infelizmente, nos ltimos anos, os criminosos haviam-se tornado
cada vez mais violentos. No apenas usavam revlveres, mas tambm armas
automticas.
Vrios policiais haviam sido mortos no cumprimento do dever, e o comissrio
decidira que a polcia passaria a andar armada. Mas Sekio no queria alarmar a me
e acrescentara:
- Alm disso, meu trabalho no tem nada de perigoso.
Ele j fora responsvel pela priso de um ladro de jias que se esquivara  polcia
por muito tempo,
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um traficante de txicos e um assassino. Era muito respeitado pelos colegas.
Agora, sentado na sala do inspetor West, um dos homens mais importantes da
Scotland Yard, o sargento Takagi sentia-se um pouco nervoso. Tinha o maior
respeito pelo homem sentado  sua frente.
- J sabe do caso do estrangulador, no  mesmo?
- Sei, sim, senhor.
Todos em Londres sabiam sobre o estrangulador.
- Precisamos de sua ajuda.
- O que eu puder fazer.
- Tem uma ficha excelente.
- Obrigado.
- Nosso problema  a ausncia de pistas. - O inspetor West levantou-se, comeou
a andar de um lado para o outro. - Voc deve saber alguma coisa sobre os
assassinos em srie. Isto , os assassinos que continuam a matar uma pessoa depois
da outra.
- Sei um pouco, senhor.
- Neste caso, sabe que, de um modo geral, eles seguem um padro. Por exemplo,
um assassino em srie s mata prostitutas, ou apenas estudantes, ou mulheres de
uma mesma idade. Segue sempre o padro.
- Certo, senhor.
- Nosso problema  que, neste caso, no h nenhum padro. Algumas mulheres que
ele matou eram velhas, outras jovens, havia casadas, solteiras. Uma era professora
de piano, outra dona de casa, uma terceira era modelo.
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Percebe agora o que estou querendo dizer? No h nenhum padro. Ele
simplesmente ataca ao acaso.
Sekio Takagi franziu o rosto.
- Desculpe, inspetor, mas isso no parece certo.
- Como assim?
- H sempre um padro. Apenas temos de descobri-lo.
O inspetor West fitou-o com alguma surpresa.
- Acha que pode descobri-lo?
- No sei, senhor. Mas gostaria de tentar.
- Est bem. Minha secretria lhe entregar uma lista das vtimas. Pode comear a
investigao imediatamente.
O sargento Sekio Takagi levantou-se.
- Agradeo a oportunidade, senhor.
- H duas coisas que deve saber.
- Quais, senhor?
- Todas as vtimas tm uma marca nas costas.
- Que tipo de marca?
- No sabemos exatamente o que . Parece uma equimose. Como se algo as tivesse
espetado nas costas.
- Poderiam ter sido espetadas com alguma agulha?
- No. A pele no foi rompida. E h mais uma coisa.
- O que , senhor?
- O estrangulador s mata quando est chovendo.
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A vrios quilmetros dali, na Sloane Square, um homem aproximou-se de uma
banca de jornais. Leu a ltima manchete:
VERIFIQUEM O BOLETIM METEOROLGICO.
O ESTRANGULADOR S MATA NA CHUVA.
O homem sorriu. Era verdade. Gostava de estrangular suas vtimas e virar seu rosto
para cima, a fim de que a chuva de Deus lavasse seus pecados.
Todas as mulheres eram pecadoras. Deus queria que fossem mortas. Ele realizava o
trabalho de Deus, livrando o mundo do mal. No podia entender por que a polcia o
procurava... por que queriam puni-lo. Deveriam recompens-lo por livrar o mundo
daquelas mulheres diablicas.
O nome do assassino era Alan Simpson. Quando era pequeno, sempre ficava
sozinho. O pai trabalhava duro numa fbrica de sabo, nos arredores de Londres, e
passava o dia inteiro fora de casa. A me deveria ficar em casa, cuidando dele, mas
sempre que voltava da escola Alan encontrava o apartamento vazio. A me sara
para algum lugar. Se Alan sentia fome, tinha de
preparar algo para comer.
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A me era jovem e bonita, e Alan a adorava. Mas queria que ela lhe dispensasse
alguma ateno.
- Estar em casa quando eu voltar da escola, mame?
- Claro, querido.
E ele acreditava. S que nunca encontrava a me ao voltar.
- Voc disse que ficaria em casa.
- Eu sei, querido, mas surgiu uma coisa importante para fazer. - Sempre havia
uma coisa importante. - Esta noite vou fazer sua comida predileta, querido.
E ele aguardava ansioso. Mas a me nunca cumpria a promessa. Saa de manh bem
cedo e voltava tarde demais para preparar o jantar. Assim, Alan e o pai tinham de
abrir latas de alimentos para comer. Quando ficou um pouco mais velho, Alan
passara a fazer o jantar.
Especulava o que mantinha a me to ocupada durante o dia inteiro. Ela no tinha
emprego, e Alan no podia imaginar por que se ausentava durante tanto tempo.
Quando tinha doze anos sua curiosidade aumentara e decidira descobrir.
Um dia, quando deveria ir  escola, escondeu-se num beco em frente ao prdio e
esperou. Pouco depois, a me saiu, vestida em suas melhores roupas. Comeou a
andar pela rua, como se estivesse com pressa, e Alan seguiu-a, mantendo-se a uma
distncia segura, para no ser visto. Comeou a chover.
A me percorreu dois quarteires, virou  esquerda,
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seguiu por mais trs quarteires. Alan viu-a entrar num prdio de apartamentos.
Aonde ser que ela vai?, especulou o menino. No podia imaginar quem a me ia
visitar ali. Conhecia todos os amigos da famlia, e nenhum morava naquele prdio.
Ele ficou parado na calada,
observando.
Havia uma janela aberta no terceiro andar. Alan avistou um homem de p ali, e de
repente sua me tambm apareceu. Incrdulo, ele viu a me ir para os braos do
homem e se beijarem.
- Mame! - Alan sentiu uma raiva intensa. Ento era isso o que a me fazia
durante todo o tempo! Em vez de cuidar dele, vinha enganar o pai com outro
homem. Era infiel, no s ao marido mas tambm ao filho. Era uma prostituta.
Fora nesse momento que Alan Simpson conclura que todas as mulheres eram
prostitutas, que tinham de ser punidas, deviam ser mortas.
Ele nunca deixara que a me soubesse que descobrira seu segredo, mas daquele dia
em diante Alan passara a odi-la. Esperara at ter idade suficiente para sair de casa e
depois comeara a viajar de um lado para outro, trabalhando nos mais diversos
empregos. Como abandonara os estudos, no tinha muita instruo, e assim era
incapaz de obter um bom emprego. Trabalhara como carregador de malas num hotel,
empacotador numa loja de departamentos e vendedor numa sapataria.
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Era um rapaz bonito e bem-educado, e por isso se saa bem nos empregos.
Ningum desconfiava que no seu ntimo ardia um dio incontrolvel pelas
mulheres.
Fora na ocasio em que trabalhava como balconista numa mercearia que Alan
Simpson tivera sua idia brilhante. Ocorrera-lhe ao observar as freguesas
fazendo compras para o jantar. Ele pensara: Elas vo preparar o jantar para
seus maridos e companheiros e fingir que so boas esposas e namoradas, mas
passaram o dia inteiro enganando-os.  por isso que devem ser mortas. O que
impedia Alan de fazer qualquer coisa era o fato de no querer ser preso.
Enquanto pensava a respeito, ele olhara para a rua e constatara que comeara a
chover. Muitas mulheres saam com os pacotes, mas no tinham guarda-chuva,
e fora assim que Alan Simpson tivera sua inspirao.
Sabia como mataria as mulheres sem ser apanhado.
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Captulo Dois
sargento Sekio Takagi sabia - simplesmente sabia - que tinha de haver
algum padro no mtodo do estrangulador. Como ele selecionava suas vtimas?
Como se aproximava o suficiente para mat-las, sem que gritassem por
socorro? Ele decidiu comear pelo princpio.
A primeira vtima fora uma dona de casa. Sekio foi at sua casa. O marido
abriu a porta. Parecia que no dormia fazia dias.
- O que deseja?
Sekio mostrou sua identificao.
- Sou o sargento Sekio Takagi, da Polcia Metropolitana. Podemos conversar
por alguns minutos?
-  sobre o assassinato de minha esposa, no ? Entre. - Ele levou Sekio
para a sala de estar. - No sei por que algum poderia querer mat-la. Era
uma mulher maravilhosa. No tinha inimigos.
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- Devia ter pelo menos um inimigo.
- S pode ter sido um manaco.
-  uma possibilidade - admitiu Sekio. - Mas temos de investigar todos os
aspectos. Ela brigara com algum nas ltimas semanas?
- No.
- Recebeu telefonemas ou cartas estranhos?
- No.
- At onde sabe, ningum a ameaara?
- No creio... todos a adoravam.
- Voc e sua esposa se davam bem com os vizinhos?
- Claro. ramos amigos de todos.
O homem se tornava visivelmente mais transtornado a cada pergunta. Sekio decidiu
no pression-lo. No havia mais informaes que pudesse obter ali. Talvez o
homem estivesse certo. Devia ter sido mesmo um manaco.
Sekio foi  casa da vtima seguinte. Era uma professora que morava com os pais, os
quais no puderam esclarecer coisa alguma.
- Todos a amavam - disseram a Sekio. - Por que algum a mataria?
Era o que Sekio tencionava descobrir.
- Sua filha no tinha inimigos?
- No.
Sekio resolveu visitar a escola onde a mulher dava aulas. Falou com a diretora.
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- Estou investigando o assassinato da Srta. Templeton.
- Foi uma coisa horrvel.
- Tem alguma idia de quem poderia querer mat-la?
A diretora hesitou.
- No.
Sekio percebeu a hesitao.
- Ia dizer alguma coisa.
A diretora ficou embaraada.
- Eu no deveria falar...
- Qualquer coisa que souber pode ser til.
- Na verdade a Srta. Templeton vinha tendo problemas com o namorado. Queria
romper o relacionamento, e ele... ele se mostrou difcil.
- Ao falar em difcil, o que exatamente est querendo dizer?
- Ele a agrediu.
- Era um homem violento?
- Era, sim. Tinha um temperamento agressivo.
- Muito obrigado pelas informaes.
Sekio tornou a procurar os pais da Srta. Templeton.
- Falem-me sobre o namorado de sua filha.
- Ralph Andrews. No era mais seu namorado. Ela o largou.
- Ao que me disseram, ele ainda se considerava o namorado.
-  possvel.
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- Tenho de lhe perguntar uma coisa, Sra. Templeton. Acha que Ralph Andrews 
capaz de matar algum?
Houve uma pausa prolongada antes da resposta:
- , sim.
Ralph Andrews era mecnico. Sekio encontrou-o trabalhando numa oficina na
Mount Street Andrews era alto, ombros largos, braos musculosos.
- Sr. Andrews?
- O que voc quer? Sekio Takagi identificou-se.
- Quero conversar sobre o assassinato da Srta. Templeton.
- Ela merecia morrer. Prometeu casar comigo e depois mudou de idia.
- Foi por isso que a matou?
- Quem disse que a matei?
- No foi voc?
- No. Deve ter sido outro namorado que ela chutou.
- A Srta. Templeton tinha outros namorados?
- Provavelmente. Voc  o detetive. Por que no descobre?
Sekio no gostou da atitude do homem. Tinha a impresso de que ele era bem capaz
de matar algum.
- Sr. Andrews, onde estava h cinco noites, quando a Srta. Templeton foi
assassinada?
- Participei de um jogo de cartas naquela noite.
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Tnhamos um encontro marcado, mas ela cancelou e fui jogar cartas com a turma.
- Quantas pessoas jogaram?
- Eu e mais cinco.
- Pode me dar seus nomes, por favor?
- Claro.
Sekio Takagi anotou as informaes mas tinha o pressentimento de que seria perda
de tempo. Andrews jamais conseguiria recrutar cinco testemunhas para mentirem
por ele. O homem devia estar dizendo a verdade.
E Sekio tinha razo. Os outros confirmaram que se encontravam na companhia de
Andrews naquela noite. Portanto, ele nada tinha a ver com o assassinato.
Sekio voltara ao ponto de partida. Verificou se as outras vtimas se conheciam, mas
o resultado foi negativo. Verificou se freqentavam o mesmo salo de beleza ou
tinham o mesmo mdico. Tudo deu em nada. Parecia no haver nenhuma ligao
entre as mulheres.
Quando retornou a seu escritrio, o sargento Sekio Takagi encontrou um grupo de
reprteres  espera.
- Soubemos que foi designado para investigar o caso - disse um deles, um tipo
antiptico, chamado Billy Cash.
- O que est fazendo para descobrir o estrangulador?
- H muitas pessoas trabalhando no caso e temos feito o possvel para encontr-lo -
respondeu Sekio.
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- No  muito jovem para cuidar de um caso to importante?
- A idade nada tem a ver com a competncia-disse Sekio, incisivo.
Ele no gostava de falar com reprteres. O caso vinha tendo muita divulgao. Sekio
entrou em sua sala e chamou o detetive Blake.
- Daqui por diante, voc trata com a imprensa - disse ele. - No quero falar com
os reprteres.
- Certo. Eles podem ser'muito impertinentes.
- No me importo com isso. Apenas no quero que deixem todas as mulheres da
cidade alarmadas. A situao j  bastante ruim sem isso.-Ele bateu com o punho
na mesa. - Quero descobrir esse louco!
- Para um louco, ele  bastante esperto-comentou o detetive Blake. - No temos
a menor idia de quem , onde mora ou por que matou aquelas mulheres.
- Quando soubermos por que ele s mata quando chove, ento descobriremos
muito mais a seu respeito - garantiu Sekio.
Era difcil para Sekio Takagi compreender como algum podia matar, e ainda mais
difcil entender como algum era capaz de matar mulheres inocentes.
Sekio vinha de uma famlia feliz. Tinha trs irms, pai e me amorosos. A famlia
fora primeiro para os Estados Unidos e depois se mudara para a Inglaterra.
Sekio lera sobre a Inglaterra, a fim de conhecer
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alguma coisa sobre o pas onde ia viver. Os britnicos e americanos eram muito
diferentes uns dos outros.
No sculo XVIII, a Amrica pertencia  Inglaterra, que na ocasio dominava grande
parte do mundo. Suas colnias incluam a Austrlia, ndia e Amrica.
A Amrica era povoada por pessoas que haviam fugido de seus pases em busca de
liberdade religiosa. Os americanos eram muito independentes.
O rei Jorge, da Inglaterra, tinha muito pouco respeito pelos americanos. Como
enfrentava um problema de escassez de dinheiro, o rei resolvera aplicar uma taxa
sobre o ch. Assim, quando os americanos recebessem seu ch da Inglaterra, teriam
de pagar mais caro.
Ao tomarem conhecimento do novo imposto, os americanos ficaram furiosos. Um
carregamento de ch chegou ao porto de Boston. Em vez de pagarem a taxa, os
americanos jogaram todo o ch no mar. Foi o incio da Revoluo Americana.
O rei Jorge teve um acesso de raiva ao ser informado. Mandou suas tropas para a
Amrica, a fim de dar uma lio nos colonos. Mas os americanos, embora tivessem
armas inferiores, derrotaram os soldados britnicos e declararam sua independncia
da Inglaterra. Foi dessa maneira que a Inglaterra perdeu uma de suas mais ricas
colnias. E tudo por causa de uma taxa sobre o ch!
Sekio achava essa histria fascinante. Notou que havia muitas diferenas entre
britnicos e americanos. Os americanos pareciam mais acessveis e cordiais.
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At se conhec-los bem, os britnicos eram fechados e retrados.
At mesmo a lngua era diferente, Sekio logo constatou. O que na Amrica se
chamava de elevator, um elevador, na Inglaterra era li/t. O capo de um carro
era hood nos Estados Unidos, e bonnet na Inglaterra. Nos Estados Unidos,
batatas fritas eram potato ckips, enquanto que na Inglaterra eram crisps. Um
caminho de entrega era delivery truck nos Estados Unidos e van na Inglaterra.
Eram muitas as diferenas.
Sekio gostara muito dos Estados Unidos, e tambm gostava da Inglaterra. Mas
no apreciava o tempo na Inglaterra. Nos Estados Unidos, havia veres
quentes, com o sol brilhando nos meses de junho, julho e agosto. Na Inglaterra,
fazia frio durante o vero, e ainda por cima chovia bastante.
E ao pensar em chuva, ele se lembrou do estrangulador. Ser que o homem
alguma vez amara algum? Fora espancado quando menino? Odiava a me?
Alguma mulher deve ter feito algo terrvel com ele, e por isso se vinga agora
em todas as outras.
Ele recostou-se na cadeira, pensou no assassino. Ningum jamais vira seu
rosto, no havia qualquer descrio. Ele seguia suas vtimas, matava-as e
parecia desaparecer em pleno ar. No deixava pistas nos locais de seus crimes.
Absolutamente nenhuma! No  de admirar que os jornais estejam
protestando, pensou Sekio. At agora, o assassino fora muito esperto.
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Havia um mapa da cidade numa parede da sala designada para Sekio. Alfinetes
haviam sido espetados nos locais dos crimes.
- D uma olhada - disse Sekio. - Nota alguma coisa?
Seu assistente, o detetive Blake, franziu o rosto.
- Os alfinetes formam um crculo em torno de Whitechapel.
Whitechapel era um bairro pobre de Londres, com casas e prdios velhos em
runas.
Talvez o assassino more por ali. Talvez conhecesse suas vtimas. Sekio Takagi
decidiu visitar Whitechapel, na esperana de encontrar alguma pista do
assassino.
Ele circulou pelas ruas num carro da polcia sem identificao, tentando
adquirir uma impresso do lugar. Era ali que o assassino residia ou apenas ia a
Whitechapel para escolher suas vtimas ao acaso?
Sekio Takagi e o detetive Blake passaram bastante tempo percorrendo as ruas,
passando por lojas de mveis, floristas, mercearias, uma loja de ferragens.
- O que estamos procurando? - perguntou o detetive Blake.
Era justamente esse o problema.
- No sei.
Sekio esperava que a visita ao bairro onde as vtimas haviam morrido lhe
proporcionasse alguma inspirao.
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Mas no viu nada suspeito. No havia nenhuma pista do assassino.
Como podia encontrar um homem sem rosto, annimo, numa cidade de milhes
de habitantes?
Precisaremos de muita sorte, pensou o sargento Takagi. Talvez ele se torne
descuidado, cometa algum erro. Mas a verdade era que, at aquele momento,
o estrangulador fora esquivo demais para ser apanhado.
- Talvez ele j tenha matado o bastante - sugeriu o detetive Blake. -
Talvez tenha ido embora e os assassinatos acabaram.
Comeou a chover.
O assassino estava prestes a atacar de novo.
27
Captulo Trs
Alan Simpson viu a chuva mida caindo, e seu corao se encheu de alegria.
Deus lhe dizia que era o momento de livrar o mundo de mais uma mulher
diablica. O excitamento comeou a domin-lo.
Caminhou pela chuva, apressado, na direo do lugar onde sempre encontrava
suas vtimas. Os jornais diziam que no havia qualquer ligao entre as vtimas.
Mas  claro que havia. Apenas a polcia era estpida demais para perceber.
Nunca descobriria qual era.
O supermercado Mayfair ficava no corao de Whitechapel. Era o lugar onde
encontrara todas as suas vtimas. Alan Simpson entrou no supermercado.
Percorreu os corredores devagar, observando as mulheres que enchiam os
cestos de compras. Eram prostitutas, todas elas. Fingindo ser esposas fiis...
comprando o jantar para maridos ou companheiros que de nada
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desconfiavam. Mas ele no se deixava enganar. Sabia o que elas eram. E uma
delas morreria naquela noite.
Observou-as para decidir qual seria. Havia uma mulher idosa, de cabelos
grisalhos, escolhendo legumes. Havia uma jovem no balco de carne,
comprando bifes... e depois ele avistou o que procurava.
Era uma mulher na casa dos trinta anos, de estatura mediana, de culos. Usava
saia e blusa bem justas. Ser voc, pensou Alan Simpson. Dentro de poucos
minutos, estar morta.
Ela se chamava Nancy Collins. Era enfermeira e trabalhava num hospital a
poucos quarteires de sua casa. Nancy costumava trabalhar no turno da noite,
mas aquele era seu dia de folga, e tinha um encontro marcado com o noivo.
O homem com quem ia casar era caixeiro-viajante, e no podiam se ver com a
freqncia com que gostariam. Nancy aguardava ansiosa pela companhia do
noivo naquela noite.
Faria um bom jantar para ele. Todos os seus pratos prediletos. Bolo de carne,
pur de batata, uma salada. Ela comprara tambm um bolo de chocolate. Seria
com certeza uma noite maravilhosa. Depois do jantar, em seu apartamento,
ficariam ouvindo msica.
Ao terminar as compras, ela saiu com os braos cheios e descobriu que estava
chovendo. Mas que droga!, pensou. Espero que a chuva no estrague nada.
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No trouxera uma capa, e seu apartamento ficava a quatro quarteires do supermercado.
No havia como evitar, teria de ir andando. Ao comear a descer a rua, um rapaz de
boa aparncia apareceu ao seu lado. Carregava um guarda-chuva. Sorriu para ela e
disse, muito amvel:
- Boa noite. Parece que vai se molhar. Por que no me deixa ajud-la? - Ele
ergueu o guarda-chuva e manteve-o sobre a cabea de Nancy.
-  muita gentileza sua - disse ela, pensando que aquilo provava que alguns
homens ainda eram cavalheiros.
- Tem de percorrer uma distncia muito grande?
- Quatro quarteires.
- No estou com pressa. Posso acompanh-la at
sua casa.
Nancy ficou comovida com a oferta generosa. A chuva aumentara.
- Eu ficaria muito agradecida.
- Seria uma pena molhar sua linda roupa. Ele  mesmo encantador, refletiu ela.
- Meu nome  Nancy Collins.
- Alan Simpson.
No havia mal nenhum em revelar seu nome, pois a mulher no viveria por tempo
suficiente para diz-lo a algum.
Continuaram pelo quarteiro. As ruas estavam quase vazias agora por causa da
chuva.
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- Mora por aqui? - perguntou Nancy.
- No muito longe. Chegaram a uma esquina.
-  por aqui - disse Nancy.
A rua se encontrava completamente deserta. Tudo parecia inocente. Nada indicava
que um macabro assassinato estava prestes a ocorrer.
- Gostaria que eu carregasse suas compras? - indagou o homem.
- Obrigada, mas posso agentar. Estou acostumada.
- O que voc faz?
- Sou enfermeira.
- Ento deve trabalhar no hospital aqui perto.
- Isso mesmo. E o que voc faz? O homem sorriu.
- Sou agente funerrio. Nancy virou o rosto para fit-lo.
- Agente funerrio?
- , sim. Estamos em profisses similares, no  mesmo? Ambos lidamos com a
morte.
Havia algo estranho na maneira como ele falou. Nancy comeou a experimentar um
ligeiro sentimento de medo. Cometera um erro ao aceitar a ajuda daquele estranho?
Ele parecia bastante inofensivo, mas... Ela passou a andar um pouco mais depressa.
O homem acelerou os passos para acompanh-la, o guarda-chuva erguido sobre a
cabea de Nancy.
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Ela planejara convid-lo para uma xcara de ch, como agradecimento por sua
ajuda. Mas agora concluiu que no seria uma boa idia. Afinal, era um
estranho. Nada sabia a seu respeito.
Percorreram dois quarteires. S faltavam mais dois para o apartamento de
Nancy.
- Estas ruas so muito escuras - comentou o estranho.
E tinha razo. Os meninos gostavam de jogar pedras nos lampies, por
diverso. Nancy j reclamara muitas vezes, mas a prefeitura no tomava
qualquer providncia.
A chuva era cada vez mais forte, tangida pelo vento.
Mais um ou dois minutos, e estarei em casa, pensou Nancy.
O estranho parecia ter algum problema com o guardachuva. Parou e ficou atrs
de Nancy por um momento. Subitamente, ela sentiu uma pontada firme nas
costas. Doeu tanto que soltou um grito e largou as compras. O homem a
golpeara com a ponta fina do guarda-chuva.
- Mas o qu...?
O homem tirara um pedao de corda do bolso e a passara em torno de seu
pescoo.
- Pare com isso! - berrou Nancy.
Mas no havia ningum para ouvi-la. A corda apertava-lhe o pescoo cada vez
mais, e ela comeou a sufocar. Tentou lutar, mas o estrangulador era muito
forte.
Sorria para Nancy agora, enquanto apertava cada vez mais a corda.
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Ela sentiu que comeava a perder os sentidos. Ele observou a
luz se extinguir nos olhos dela e deixou o corpo cair na calada.
Virou o rosto da mulher para cima, a fim de que a chuva lavasse seus pecados.
Tornou a guardar a corda no bolso. E foi ento que o estrangulador fez uma
coisa estranha. Pegou a bolsa com as compras, recolheu o que se esparramara
pelo cho e se afastou pela noite.
Mantinha o guarda-chuva levantado, a fim de no se molhar. Dez minutos
depois estava em seu apartamento e largou as compras no balco da cozinha.
Planejara tudo com o maior cuidado. Depois de cada assassinato, sempre
levava as compras da vtima, para que a polcia no descobrisse de onde as
mulheres haviam sado. No podia haver a menor dvida a respeito... era muito
mais esperto do que a polcia!
Comeou a tirar as compras da bolsa. Achava divertido ver o que as vtimas
haviam planejado para o jantar. Desta vez seria um bolo de carne, batatas, uma
salada, e um bolo de chocolate. Adorava bolo de chocolate.
E Alan Simpson comeou a preparar seu jantar.
O corpo de Nancy Collins foi encontrado por um homem que deixara o
escritrio mais tarde e voltava apressado para casa. Ao constatar que estava
morta, procurara imediatamente um telefone. Sentia-se to nervoso que mal
conseguia falar.
33
-  da polcia? Eu... quero comunicar um crime. Ou pelo menos acho que  um
crime. A mulher est morta.
- Que mulher?
- Encontrei o corpo cado na calada. Venham depressa!
- Acalme-se, por favor, e me d o endereo.
O sargento Sekio Takagi chegou ao local, num carro da polcia, quinze minutos
depois. Mandou que os guardas isolassem a rea. Olhou ao redor com o mximo de
ateno,  procura de pistas. No encontrou nenhuma. Dava para perceber as marcas
de uma corda no pescoo da mulher.
- Ela foi estrangulada - disse ele -, mas a corda desapareceu.
O rabeco chegou para levar o cadver. Parecia no haver mais nada que Sekio
pudesse fazer no local do crime. Deu uma ltima olhada ao redor... e avistou um
tomate na rua. Sekio pegou-o, contemplou-o em silncio por um longo momento,
como se pudesse lhe revelar alguma coisa.
- Isso  uma pista? - perguntou o detetive Blake.
Sekio no tinha certeza. O tomate pertencia  mulher assassinada ou outra pessoa o
deixara cair na rua? E o que a vtima estaria fazendo com um nico tomate? Algum
sairia na chuva para comprar apenas um tomate? No fazia o menor sentido.
35
Enquanto pensava a respeito, Sekio ouviu a chegada de carros e
levantou os olhos. Havia reprteres de jornais ali e tambm equipes de
TV, com microfones e cmeras. Como souberam do assassinato to
depressa?
Os reprteres comearam a gritar perguntas para Sekio.
-  outro crime do estrangulador?
- J sabe o nome da vtima?
- Tem alguma pista desta vez?
- No quer admitir que o estrangulador  esperto demais para voc?
A ltima indagao foi feita pelo reprter chamado Billy Cash, que
trabalhava para um jornal sensacionalista, The London Chronick. Billy
Cash vivia escrevendo artigos sobre a mediocridade da policia. Era
baixo e feio, vestia um velho terno cinza. O sargento Sekio Takagi fez
um esforo para manter o controle.
- A populao pode ter certeza de que estamos envidando todos os
esforos para pegar o assassino.
- Isso significa que no h pistas! - berrou Billy Cash.
Sekio no disse nada sobre o tomate. Afinal, quem podia saber se se
tratava ou no de uma pista? Uma cmera de televiso focalizou Sekio.
- Sargento, o que a policia est fazendo para proteger as mulheres
desta cidade de novos assassinatos?
Era uma pergunta difcil. Ele no podia falar demais, nem muito pouco.
Se prometesse que as mulheres
36
estariam seguras e ocorresse outro estrangulamento, ia parecer um idiota. Se
admitisse que as mulheres de Londres no estavam seguras, criaria uma onda
de pnico.
- No estou autorizado a revelar o que estamos fazendo - declarou ele,
- porque isso poderia ser til para o assassino.
- Est nos dizendo que esperam captur-lo em breve? A pergunta era de Billy
Cash, mais uma vez.
- Tirem suas prprias concluses, senhoras e senhores.
E o sargento Sekio Takagi voltou para seu carro e foi embora acompanhado
pelo detetive Blake.
Sekio Takagi sentia-se desolado com os rumos dos acontecimentos. Tinha pena
da pobre mulher que acabara de ser assassinada e queria muito descobrir o
responsvel pelo crime. Queria deter o louco que vagueava pelas ruas matando
mulheres ao acaso.
Como ele seleciona suas vtimas?, especulou Sekio. Onde as encontra? Como
se aproxima o suficiente para mat-las sem que desatem a gritar ou saiam
correndo? Era muito estranho. Ser que o assassino usa algum uniforme, a
fim de no parecer suspeito? Ou vive nas proximidades e conhece as vtimas?
Ele no tinha respostas.
O relatrio da autpsia j ficou pronto? Sekio esperava impaciente pelo
relatrio.
37
- Aqui est, sargento. Mas no h nenhuma novidade.  igual aos outros.
O homem tinha razo.
O relatrio era exatamente igual aos outros que Sekio j lera. A ltima vtima
morrera de estrangulamento. Havia marcas vermelhas no pescoo da corda que a
sufocara. Havia tambm um detalhe peculiar, o mesmo que constara de todos os
outros relatrios: uma pequena equimose nas costas. A pele no fora rompida, o que
indicava que a vtima fora cutucada por cima das roupas. Mas, qualquer que fosse o
objeto, no era bastante forte para matar a vtima.
-  desconcertante - comentou Sekio. - Por que todas as vtimas teriam a mesma
marca nas costas? E o que produziu essa marca?
Ele no sabia a resposta. Outra coisa que o preocupava era o fato de os assassinatos
sempre ocorrerem quando chovia. J ouvira falar de loucos atacando durante a lua
cheia. Supunha-se que a lua exercia algum efeito sobre seus sentidos. Mas por que
um homem s mataria quando chovia? Seria porque a chuva o deprimia? Ou haveria
algum outro motivo?
O sargento Sekio Takagi teve dificuldade para dormir naquela noite.
Quando acordou, na manh seguinte, sua primeira providncia foi abrir o jornal na
pgina da previso do tempo. Sentiu um aperto no corao ao ler.
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TEMPO NUBLADO HOJE, POSSIBILIDADE DE CHUVAS AO FINAL DA TARDE.
O assassino atacaria de novo pouco depois de seu ltimo crime?
39
Captulo Quatro
Ela no tinha a menor idia de que seria a prxima vtima do estrangulador.
Chamava-se Akiko Kanomori. Tinha vinte e quatro anos e era muito bonita. Fazia
esculturas e sabia que um dia se tornaria famosa.
Seu trabalho recebera elogios de crticos de arte, e tinha uma exposio numa galeria
local.
-  muito talentosa-dissera-lhe o dono da galeria. - Algum dia se tornar uma
escultora importante.
Akiko corara.
- Obrigada.
O trabalho representava tudo para ela. Queria muito casar e ter filhos, mas ainda no
encontrara algum que amasse muito. Recebera vrios pedidos de casamento,
mas os recusara.
- O que est esperando? - indagava o pai.
- O homem certo - respondia Akiko.
40
A me tambm a pressionava.
- J teve muitos pedidos de casamento, Akiko. Poderia ter casado com um
banqueiro, ou um mdico, ou...
- Mame, no estou apaixonada por nenhum deles. De certa forma, era verdade.
Akiko amava criar
lindas esttuas. Era quase como criar vida.
- Deveria ter um homem de carne e osso - insistia o pai.
Os pais tanto a pressionavam com isso que Akiko acabara chegando  concluso de
que seria melhor morar sozinha. Encontrara um pequeno apartamento em
Whitechapel e se mudara para l.
Era perfeito, pois, alm de um quarto e uma sala pequena, havia um enorme cmodo
que ela podia usar como ateli para fazer as esttuas. Seu trabalho era to popular
que ela vivia muito ocupada.
- Posso vender todas as esttuas que voc fizer - dissera-lhe o marchand. - No
pode trabalhar mais depressa?
- No - respondera Akiko. - Se me apressar, as esttuas no ficaro boas. Tenho
de fazer o melhor possvel.
- Tem toda a razo. Antes que eu me esquea, um dos meus melhores clientes quer
que voc faa uma esttua para o jardim dele. Uma esttua da deusa Vnus. Pode
faz-la?
- Claro. Comearei de imediato.
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Akiko comeara a trabalhar na esttua, mas se sentia inquieta. Seria uma
premonio? Um sentimento de que algo terrvel estava prestes a lhe
acontecer?
Independente do que fosse, ela no conseguia trabalhar. Preciso sair, dar uma
volta, pensou Akiko. Olhou pela janela. Havia nuvens no cu, mas nenhuma
ameaa de chuva.
Vou dar um passeio pela cidade, decidiu Akiko. Saiu do prdio. Na rua,
encontrou uma vizinha, a Sra. Goodman.
- Bom dia - disse a Sra. Goodman. - O que faz na rua a esta hora? Afinal,
costuma trabalhar o dia inteiro.
-  verdade, mas me sinto um pouco inquieta hoje.
- Para onde vai?
Era uma boa pergunta. Havia muitos lugares para se visitar em Londres. Ao
chegar  cidade, Akiko passara semanas explorando-a. Experimentara diversos
restaurantes em companhia de amigos.
- Gosta de comida italiana?
- Adoro - respondia Akiko.
- Ento vamos ao Cecconi's. A comida era maravilhosa.
- Gosta de comida indiana? Vamos  Bombay Brasserie.
A comida era picante, mas deliciosa. Ela jantara tambm no L Gavroche e no
Wheeler's.
42
Mas  claro que havia mais do que comer para se fazer em Londres. Akiko fora
ao Palcio de Buckingham e assistira  imponente mudana de guarda.
Fora  Catedral de St. Paul, to grande que se levava mais de uma hora para
percorr-la.
Visitara a Torre de Londres e a Abadia de Westminster.
Havia muita coisa instrutiva para se ver em Londres.
- J esteve alguma vez no Museu Britnico?
- No.
- Pois ento a levarei at l na minha hora de almoo - dissera uma amiga de Akiko.
- Tenho certeza de que vou gostar.
Ao entrar no museu, Akiko compreendera que tentar ver tudo ali em uma hora
era impossvel. Precisava-se de uma semana, um ms, talvez at dois meses!
Estava repleto de coisas maravilhosas do passado e parecia conter toda a
histria de Londres.
Akiko tambm se interessava por arte, como no podia deixar de ser.
- Quero conhecer a Galeria Tate e o Museu Victoria e Albert Os britnicos
chamavam-no de V & A.
Havia uma incrvel loja de departamentos chamada Harrod's. Quando tentara
descrever para algum mais tarde, indagada sobre seu tamanho, Akiko dissera:
- Parece no ter fim.
43
A loja vendia quase tudo que se podia imaginar, roupas e mveis, discos e
livros, legumes e flores, pianos e bombons. Era uma autntica cornucpia de
delcias.
Os campos ingleses eram espetaculares. O verde mais intenso que Akiko j
vira. Num fim de semana, Akiko ouvira falar de uma aldeia pequena e
sensacional chamada Bath.
- Por que no vamos passar um ou dois dias l?
E assim foram para Bath, hospedaram-se no Royal Crescent Hotel. Ficaram
num quarto com sauna particular.
Akiko tambm visitara o Castelo de Windsor, uma das residncias da famlia
real. A Inglaterra era sem dvida um pas de maravilhas!
Naquele dia em particular, quando se sentia to inquieta, Akiko decidira que
visitaria de novo a Torre de Londres, onde ficavam guardadas as jias da
Coroa. Assim, quando a vizinha, a Sra. Goodman, perguntoulhe aonde ia,
Akiko respondeu:
- Vou visitar a Torre de Londres.
- Isso  timo. Voc trabalha demais. Uma moa bonita como voc deveria ter um
namorado ou um marido.
A Sra. Goodman falava como os pais de Akiko.
- No tenho pressa em me casar, Sra. Goodman. Akiko pegou um nibus para
o centro da cidade, e
44
meia hora depois saltou na frente da enorme torre. Havia vrios turistas
esperando para entrar, e ela foi para a fila. Um pouco  frente estava um rapaz
magro e bonito, com um guarda-chuva, mas Akiko no prestou ateno.
Alan Simpson no percebeu a linda moa japonesa um pouco atrs na fila.
Pensava na Torre de Londres.
Visitava-a com freqncia e sempre o excitava. Era o lugar onde, por centenas
de anos, os reis mantinham suas esposas e amantes trancafiadas e muitas vezes
mandavam decapit-las. Gostava de pensar na cabea das mulheres caindo do
pescoo e rolando pelo cho. As prostitutas bem que mereciam. E os reis
nunca eram punidos pelo que faziam, pensou Alan Simpson. Estavam
aplicando a justia, da mesma maneira que eu.
Ele correu os olhos pela multido de turistas e pensou: Se soubessem quem eu
sou, desatariam a gritar e fugiriam. Sou mais poderoso que qualquer um
deles. Sou to poderoso quanto os antigos reis.
A multido comeou a se deslocar pelos cmodos da antiga torre e em cada um
Alan Simpson experimentava uma intensa emoo. Eu deveria ter vivido
naquele tempo, pensava ele. Seria um rei. Uma mulher esbarrou nele e
murmurou:
- Desculpe.
Alan Simpson sorriu.
- No foi nada.
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Aquelas mulheres no corriam perigo. Ele s atacava depois que escurecia, e
na chuva, quando era mais seguro. Alan Simpson pensou, feliz: Esta noite. A
previso do tempo foi de chuva esta noite.
Akiko tomou um ch numa pequena loja perto do Museu Britnico. Adorava o
ch ingls. Era servido com pequenos sanduches, biscoitos com gelia 
bolinhos. Era sem dvida um banquete. Teve o cuidado de no comer demais,
pois tudo aquilo engordava, e ela se orgulhava de seu corpo esguio.
Sentiu-se melhor depois de comer. Tenho de voltar ao trabalho, pensou Akiko.
Preciso acabar a esttua que estou fazendo. O dono da galeria faria mais uma
exposio de obras suas dentro de duas semanas, e Akiko queria aprontar tudo
a tempo. A conta do ch chegou a trs libras. Londres era uma cidade de vida
cara. Akiko pagou, pegou o nibus e voltou para casa.
Akiko trabalhou na nova esttua at que comeou a escurecer. Estava ficando
tima. Devo conclu-la amanh, pensou ela. Guardou os equipamentos e lavou
as mos. Nada tinha para fazer agora. Acho que vou ficar em casa e ver
televiso, pensou Akiko. Faria seu jantar. Foi at a cozinha e abriu o armrio.
No havia muitos mantimentos ali. Sairei para comprar comida, decidiu
Akiko. Havia um supermercado a apenas cinco quarteires do prdio, o Mayfair.
46
O supermercado Mayfair estava apinhado. Akiko pegou um carrinho e andou
entre os corredores, tentando decidir o que faria para o jantar. Acho que vai ser
um sukiyaki de galinha, pensou ela. Escolheu talharim, legumes, molho de soja,
foi ao balco de carnes. O funcionrio no outro lado mostrou-se bastante
polido:
- O que deseja?
- Gostaria de pedaos de galinha para fritar.
- A galinha est tima hoje.
Ele escolheu um peito e mostrou a Akiko.
- Est timo. Obrigada. Pode cortar para mim, por favor?
- Claro, moa.
Minutos depois, Akiko j apanhara tudo de que precisava e podia ir embora.
Encaminhou-se para a sada e parou, o rosto franzido. Comeara a chover.
Gostaria de ter trazido a capa, pensou ela. Ficarei encharcada. Mas tambm
no posso permanecer aqui para sempre.  melhor partir logo de uma vez.
Nesse momento, um rapaz atraente, que tambm saa do supermercado, lhe
disse:
- Chove muito, no ?
- Infelizmente.
- Est de carro?
- No.
Ele olhou para Akiko com um ar compadecido.
-  uma pena. - O rapaz ergueu o guarda-chuva. - Pelo menos estou de
guarda-chuva. Mora aqui perto?
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- A meia dzia de quarteires, naquela direo - respondeu Akiko,
apontando.
- Mas isso  incrvel! Tambm moro naquela direo. Permite que eu a ajude?
O guarda-chuva d para dois.
-  muita gentileza sua. Ele sorriu.
- Ora, no  nada. O prazer ser meu.
Saram para a chuva e Akiko sentiu-se contente por contar com a proteo do
guarda-chuva do estranho.
- Posso ajud-la com as compras? - perguntou Alan Simpson.
- No precisa, obrigada. No est muito pesado. Enquanto andavam pela rua,
sob o aguaceiro, o
estrangulador comentou:
-  uma coisa inevitvel em Londres. Se voc no gosta do tempo, espere s
um pouco, que logo muda.
- Tem razo.
Akiko sorriu. No percebeu que o estranho a estudava pelo canto dos olhos.
Ele pensava: Voc vai morrer esta noite.
E Akiko pensou:  um rapaz muito simptico. Talvez eu o convide para tomar
um caf guando chegar em casa. Ele est se desviando de seu caminho para
me ajudar.
Chegaram ao final do quarteiro, atravessaram a rua. Ao passarem pelo local
em que matara sua ltima vtima, Alan Simpson sorriu para si mesmo. Como
aquela mulher gritaria se soubesse a verdade! Pois ela
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saberia muito em breve. Mais  frente, havia um trecho da rua mergulhado na
escurido, os lampies quebrados por garotos travessos. Aconteceria ali.
No meio do quarteiro, Alan Simpson ficou para trs de Akiko por um instante, e ela
sentiu uma sbita e dolorosa pontada nas costas. Deixou cair a bolsa com as
compras.
- Mas o qu...?
Alan Simpson estava tirando uma corda do bolso.
- O que voc...?
Antes de poder falar mais alguma coisa, Akiko sentiu a corda envolver-lhe o
pescoo. O homem sorria enquanto apertava a corda. Akiko tentou gritar por
socorro, mas no conseguiu emitir qualquer som. A corda apertava cada vez mais, e
Akiko comeou a perder os sentidos. Vou morrer, pensou ela. Vou morrer.
50
Captulo Cinco
- Uma luz forte brilhava em seus olhos, podia ouvir rudos altos ao redor, e ela pensou:
Morri e estou em algum lugar estranho. Quase que teve medo de abrir os olhos.
- Ela est viva! - exclamou uma voz.
Akiko tomou coragem para abrir os olhos. Estava cada na calada, sob a chuva.
Algum ajeitara um casaco por baixo de sua cabea. Havia uma dzia de homens de
p ao seu redor. Todos pareciam falar ao mesmo tempo. Akiko fez um esforo para
sentar.
- O que... o que aconteceu? - balbuciou ela.
De repente, Akiko se lembrou. Quase que podia sentir a corda apertando-lhe o
pescoo e ver o sorriso do homem. Tentara gritar... e depois tudo escurecera.
Um jovem bonito ajudou Akiko a se levantar.
- Voc est bem? - perguntou ele.
51
l
- Eu... no sei.
A voz de Akiko saiu trmula.
- Meu nome  Sekio Takagi. Sou da Scotland Yard. Akiko olhou ao redor,
apreensiva.
- Onde est o homem que tentou me matar?
- Infelizmente, ele conseguiu escapar. Teve muita sorte. Um txi por acaso
desceu a rua no momento em que o homem tentava mat-la. Ao ver o que
acontecia, o motorista parou o txi. O homem entrou em pnico e fugiu. O
motorista ligou para a polcia, e aqui estamos ns.
Akiko respirou fundo.
- Pensei que ia morrer.
- E quase morreu - disse Sekio.
Ele avaliou a mulher. Era jovem e linda. Especulou se seria casada.
Akiko tambm estudava o sargento Takagi e pensou: Um rapaz muito bonito e
parece fino e preocupado. Especulou se ele seria casado.
Sekio estava ansioso por interrog-la para obter uma descrio do assassino.
Mas percebeu que a moa se encontrava  beira da histeria e decidiu que podia
esperar at a manh seguinte. S ento a interrogaria.
Sekio olhou ao redor, a fim de verificar se o assassino deixara alguma pista, em
sua pressa de escapar. Nada. Viu as compras que haviam cado da bolsa e se
espalhavam pelo cho. Sekio franziu o rosto.
- Estas compras so suas?
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Akiko ficou surpresa com a pergunta.
- So sim.
Sekio lembrou do tomate que encontrara no local do ltimo crime e seu rosto
iluminou-se subitamente.
- Onde fez as compras? - indagou ele. Akiko ficou ainda mais perplexa.
- Onde fiz as compras?
- Isso mesmo. Em que mercado?
- No supermercado Mayfair. No entendo o que isso...
- No  importante - mentiu Sekio.
Tinha certeza de que encontrara sua primeira pista. Seria muito simples para o
assassino esperar as mulheres  sada de um supermercado, oferecer-se para ajud-las
com os embrulhos e depois mat-las. Sekio concluiu que agora seria mais fcil
descobrir o assassino.
S que no disse nada a Akiko, ao detetive Blake ou a qualquer dos outros. Um dos
homens recolheu as compras do cho.
- Qual  o seu nome? - perguntou Sekio.
- Akiko... Akiko Kanomori. Sekio anotou o nome.
- E seu endereo? Ela informou.
- Mandarei um dos meus homens acompanh-la at em casa.
Akiko esperava que o prprio Sekio a levasse at em casa. Ficou desapontada.
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Sekio tinha pressa em sair dali para ir ao supermercado Mayfair. Tinha certeza de
que era o lugar de onde o assassino operava. Um senso de excitamento o dominava.
Ouviu o barulho de um carro parando, com uma freada brusca, e se virou. O carro
estava cheio de reprteres, inclusive Billy Cash, com uma cmera nas mos.
- O que aconteceu? - gritou Billy Cash. - Soubemos que houve um assassinato
aqui.
- No aconteceu nada - disse Sekio. - Trate de ir embora.
Mas Billy Cash olhou para Akiko e viu as marcas em sua garganta.
- Foi voc que ele atacou. O estrangulador tentou mat-la, no  mesmo?  a
primeira mulher que conseguiu escapar viva.
Ele levantou a cmera, tirou uma foto de Akiko. O sargento Sekio Takagi ficou
furioso.
- J chega! No quero que publique essa foto. Pode expor ao perigo a vida desta
moa. Est me entendendo?
- Claro. - Billy Cash virou-se para Akiko. - Qual  o seu nome?
- No  da sua conta! - gritou Sekio. - E agora saia daqui!
Ele observou Billy Cash e os outros reprteres se afastarem, com evidente
relutncia.
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- Lamento o que aconteceu - disse Sekio a Akiko. - Ele pode se tornar
uma ameaa.
Ela sorriu.
- Ento so duas ameaas que sofri esta noite. Sekio acenou com a cabea
para um dos seus homens.
- Pode fazer o favor de levar a Srta. Kanomori at sua casa e cuidar para que
ela chegue l s e salva?
- Claro, senhor.
Sekio tornou a fitar a linda jovem.
- Vai ficar bem?
- Estou um pouco abalada, mas no precisa se preocupar.-Akiko
estremeceu.-Nunca mais irei quele supermercado.
Sekio pensou: Mas outras mulheres iro, e o assassino tambm; e quando isso
acontecer, vamos prend-lo. Observou Akiko entrar num carro da polcia. Ela
inclinou a cabea pela janela e disse:
- Obrigada. Boa noite.
O sargento Sekio Takagi foi primeiro a seu escritrio, onde pegou uma foto de
Nancy Collins, a ltima vtima do estrangulador. Depois, foi at o
supermercado Mayfair.
O supermercado encontrava-se apinhado quando Sekio chegou.
Funcionava vinte e quatro horas.
As mulheres que no podiam fazer suas compras durante o dia iam at l  noite.
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Um funcionrio aproximou-se de Sekio.
- Deseja alguma coisa?
- Eu gostaria de falar com o gerente, por favor. Poucos minutos depois, o gerente
apareceu.
- Em que posso ajud-lo?
Sekio mostrou sua identificao da polcia e tirou do bolso a foto de Nancy Collins.
- Gostaria de saber se algum pode me dizer se esta mulher fez compras aqui. Ela
no poderia ser uma freguesa regular?
O gerente deu de ombros.
- Milhares de pessoas fazem compras aqui, senhor, e duvido que algum seja capaz
de reconhec-la.
- Importa-se de perguntar? Talvez algum se lembre dela.
- Est bem. Vamos verificar.
Circularam pelo imenso supermercado, mostrando a foto aos funcionrios por
trs dos balces.
- No, no a vi.
- Fico ocupado demais para olhar os rostos das freguesas.
- Nunca a vi antes.
- No  aquela mulher que foi assassinada?
- No, no me lembro... Ei, espere um pouco! Mas  claro! Eu a servi na
outra noite!
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O sargento Sekio Takagi reuniu-se com o inspetor West, na Scotland Yard.
- O funcionrio identificou-a como uma freguesa do mesmo supermercado onde
Akiko Kanomori fez suas compras.
- No  uma prova das mais convincentes.
- Tenho certeza absoluta - insistiu Sekio, obstinado. - Aquele tomate no local
onde Nancy Collins foi assassinada deve ter cado de sua bolsa de compras. O
estrangulador pegou o resto e levou embora. Se o txi no tivesse aparecido esta
noite, estou certo de que no encontraramos nenhuma compra na rua. Minha teoria
 de que ele espera no supermercado Mayfair, com um guarda-chuva, escolhe uma
mulher sem guarda-chuva e se oferece para ajud-la a voltar para casa. No caminho,
ele a mata. As marcas que descobrimos nas costas das vtimas podem ter sido feitas
por uma ponta de guardachuva.  bem provvel que o assassino as espete pelas
costas, as mulheres largam as compras, ele tira uma corda do bolso, estrangula-as e
desaparece.
O inspetor West ficou em silncio por um momento, estudando o jovem
subordinado.
-  uma teoria interessante - disse ele. - O que quer que faamos agora?
- Eu gostaria que pusesse meia dzia de homens  minha disposio. S vou
precisar deles nas noites de chuva. Ficaro  espreita no supermercado, disfarados
como funcionrios. Ficaremos atentos a qualquer homem de guarda-chuva
58
que se oferea para ajudar mulheres na sada do
supermercado. O inspetor West suspirou.
-  uma manobra arriscada, mas creio que  a nica coisa com que contamos at
agora. Muito bem, farei o que me pede. Porei os homens  sua disposio.
Sekio sorriu.
- Obrigado, senhor.
- Quando pretende comear?
- Esta noite.
Os policiais espalharam-se pelo supermercado, usando aventais, procurando dar a
impresso de que eram apenas funcionrios. Sekio lhes dissera:
- Fiquem muito atentos. Estamos procurando por um homem que entra aqui e finge
fazer compras. Tudo indica que ele no compra nada. E a nica coisa que posso
dizer a seu respeito  que usa um guarda-chuva. Espreita as mulheres que deixam o
supermercado com compras mas sem guarda-chuva.  assim que ele faz contato com
suas vtimas. Quando elas saem, ele se oferece para acompanh-las at em casa.
Quero que fiquem vigiando a sada. Assim que perceberem algum que faa o que
acabei de descrever, entraremos em ao. Entendido?
Todos acenaram com a cabea em concordncia. Estavam no supermercado fazia
quatro horas. Continuav a chover,
59
mas no havia qualquer sinal do homem que procuravam.
O detetive Blake disse:
- Ele quase foi preso esta noite.  bem provvel que no volte.
- No concordo - disse Sekio. - Esta noite foi a primeira vez que ele
fracassou. Deve estar furioso. Vai querer voltar e escolher outra vitima. No
imagina que estamos  sua espera.
- Espero que esteja certo. Gostaria de acabar logo com isso.
- Eu tambm.
Sekio pensava na adorvel Akiko. Fico contente pelo fato de o estrangulador
no ter conseguido mat-la. E tambm porque ela se encontra segura agora.
Depois que passar o choque, irei procur-la para obter uma descrio do
assassino.
Em seu apartamento, Akiko Kanomori trancou todas as portas e janelas, com o
maior cuidado. Ainda se sentia bastante abalada pela coisa terrvel que lhe
acontecera. O detetive dissera:
- Est tudo bem, Srta. Kanomori? Gostaria que eu permanecesse aqui por
algum tempo?
- Obrigada, mas no precisa se preocupar mais. Akiko no sentia mais fome.
Apenas medo. Muito
medo. Pelo menos o estrangulador no sabe quem eu sou, pensou ela. No h
a menor possibilidade de ele me encontrar.
60
Na redao do London CKronice, Billy Cash conversava com seu editor.
- Tirei uma foto da mulher-disse ele. - Podemos public-la na primeira
pgina da edio de amanh.
- Sensacional! Ser um grande furo. Ela  a nica que conseguiu escapar com
vida do estrangulador. Descobriu seu nome e endereo?
- No. Aquele detetive estava l e me impediu de interrog-la. Mas no tem
importncia. Algum ir identific-la.
Na manh seguinte, Akiko acordou abruptamente, o corao disparado. Tivera
um pesadelo. Sonhara que um homem tentava mat-la com uma corda
comprida e quente. Logo compreendeu que no fora um sonho, que acontecera
de fato. Quase morrera.
Ela estremeceu. Tenho de superar isso, pensou. No posso continuar a viver
com medo. De qualquer maneira, tenho certeza que vo prender o homem. O
jovem policial parecia muito competente.
Akiko saiu da cama e vestiu-se. Ficou surpresa ao descobrir que sentia
muita fome. Portanto, a iminncia da morte abre o apetite. Ela decidiu
ir ao pequeno restaurante na esquina e tomar o caf da manh ali.
Ao deixar o prdio, encontrou a Sra. Goodman, que lhe disse:
- Bom dia, Akiko. Gostou da visita de ontem  Torre de Londres?
61
Akiko fitou-a, aturdida. S depois de um instante  que lhe ocorreu: Claro, ela
no sabe que o estrangulador tentou me matar. Ningum sabe.  por isso que
estou segura. Ele nunca ser capaz de me descobrir.
Akiko encaminhou-se para o restaurante na esquina. Havia uma banca
de jornais na frente. Akiko parou de repente, em choque. Na primeira
pgina do jornal havia uma enorme fotografia sua, com a manchete:
TESTEMUNHA MISTERIOSA VIVA!
VTIMA ESCAPA DO ESTRANGULADOR.
62
Captulo Seis
Akiko Kanomori entrou em pnico. Ficou olhando para sua foto no jornal,
incrdula. Agora o estranho saberia quem ela era e viria liquid-la!
Sentia-se nua, como se fosse observada por todas as pessoas que
passavam pela rua.
No queria mais comer nada. Virou-se, voltou correndo para o
apartamento. Trancou todas as portas e janelas, sentou no sof,
tremendo. O que vou fazer agora?
Na Scotland Yard, o sargento Sekio Takagi viu o jornal. E tambm ficou
chocado.
Aquele reprter, Billy Cash! Sekio seria capaz de mat-lo com a maior
satisfao. Deliberadamente, ele pusera em perigo vida de Akiko
Kanomori. O telefone tocou.
- O inspetor West quer falar com voc agora.
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O inspetor West estava furioso. Tinha o jornal em cima da mesa. Levantou os olhos
quando Sekio entrou na sala.
- O que significa isto? - indagou ele. - Como a foto de sua testemunha pde sair no
jornal?
- Sinto muito.  difcil controlar a imprensa, inspetor.
- Eles sabem o nome dela?
- No, senhor. No tm a menor idia de quem  ou onde mora.
- Pois mantenha assim - resmungou o inspetor West - Ela  a nossa nica pista
concreta para o assassino. - Uma pausa, e ele acrescentou, sarcstico: - Isso e o
seu tomate.
O rosto de Sekio tornou-se vermelho.
- Certo, senhor.
-  melhor ir procur-la. Se ela viu o jornal, deve estar em pnico.
- Irei agora mesmo, senhor.
Cinco minutos depois, Sekio estava a caminho do apartamento de Akiko.
Quando ouviu a campainha da porta, Akiko teve medo de atender. Ser o assassino
no outro lado da porta, com uma corda nas mos? A campainha tocou de novo.
Akiko foi at a porta.
- Quem ?
- Sou o sargento Takagi.
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Ela reconheceu a voz e sentiu uma sbita sensao de alvio. Destrancou e
abriu a porta. Sekio percebeu o pnico estampado em seu rosto.
- Posso entrar?
- Claro.
Ele entrou no apartamento, olhou ao redor. Era um lindo apartamento, limpo e
arrumado. O tipo de apartamento que Sekio imaginava para uma moa assim.
- Sente-se, por favor.
- Vi o jornal - disse Sekio. - Peo desculpas.
- No foi culpa sua.
- De certa forma foi, sim. Eu gostaria de ter mandado deter aquele reprter.
- Estou com muito medo. Acho que agora o estrangulador vai me descobrir e vir
me matar.
- Por favor, no se apavore. Em primeiro lugar, ele no sabe seu nome, nem onde
mora. E tenho uma boa notcia: creio que j sabemos como captur-lo.
-  mesmo?
- Descobrimos como ele escolhe suas vtimas. Lembra do supermercado Mayfair,
onde fez suas compras?
- Claro.
- Ele a encontrou ali, no  mesmo? Akiko franziu o rosto.
- Foi, sim. Estava chovendo, ele tinha um guardachuva e se ofereceu para me
acompanhar at em casa.
-  assim que ele age. Quando chove, vai ao supermercado e seleciona uma mulher
que esteja sem guarda-chuva,
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oferece-se para acompanh-la at sua casa e a estrangula.
Akiko estremeceu.
- Foi horrvel.
- Mas vamos prend-lo - prometeu Sekio. - Quando isso acontecer, poder
identific-lo?
Akiko acenou com a cabea.
- Claro. Posso at fazer uma cabea dele. Sekio piscou, surpreso.
- Como?
- Posso fazer o rosto dele em argila. Sou escultora. Sekio mal podia acreditar em
sua sorte.
- Pode mesmo?
- Claro.  o meu trabalho. Venha conhecer meu ateli.
Akiko levou-o  sala ao lado. Sekio admirou as lindas esculturas. Algumas esttuas
eram em tamanho natural, outras, bustos de homens e mulheres.
- So maravilhosas! - exclamou ele. Akiko corou.
- Obrigada.
Sekio virou-se para ela:
- Pode fazer uma cabea do estrangulador?
- Posso. Nunca esquecerei o rosto dele.
- Quanto tempo levaria?
- No mais que um ou dois dias.
- Seria timo, uma grande ajuda para ns. Fotografaremos a cabea e mandaremos
para todos os jornais.
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Assim, todos sabero como  o assassino. Ele no ter como se esconder.
Akiko percebeu o excitamento na voz do sargento.
- Terei o maior prazer em ajudar. Quero que ele seja preso o mais depressa
possvel.
Sekio observava-a, e pensou: Ela  muito bonita. Mais uma vez, especulou se seria
casada.
- Voc tem... isto , algum mora em sua companhia?
- No. Moro sozinha.
Ele sentiu-se feliz ao ouvir isso.
- Se quiser, posso destacar um policial para ficar aqui, protegendo-a, at
prendermos o assassino.
Akiko pensou a respeito. No lhe agradava a perspectiva de uma pessoa estranha
passando o tempo todo no apartamento.
- Disse que no corro um perigo real, que ele no sabe quem sou, nem onde moro?
- Isso mesmo.
- Neste caso, acho que no preciso de proteo. Sekio acenou com a cabea.
- Como achar melhor. Se no se importar, passarei por aqui de vez em quando,
para inform-la sobre o que est acontecendo.
- Eu agradeceria.
Ambos sorriam um para o outro. Sekio nunca se sentira to atrado por uma mulher.
67
- Bom, acho que est na hora de eu ir embora - murmurou ele, embaraado. -
Vou deix-la trabalhar.
- Comearei imediatamente - prometeu Akiko. Ela trancou a porta depois que o
sargento saiu.
Quando tudo isso acabar, pensou, desolada,  bem provvel que nunca mais torne a
v-lo.
Ao deixar o apartamento, Sekio disse ao detetive Blake:
- Ela no quer ningum em sua companhia, mas acho que precisa de alguma
proteo. Avise ao guarda da ronda para ficar atento ao apartamento, em particular
nas noites de chuva.
- Acha que vamos pegar o estrangulador?
- Tenho certeza - garantiu Sekio. - Mas quero captur-lo antes que ele mate
mais algum.
Especialmente Akiko, pensou ele.
Esculpir a cabea do estrangulador revelou-se mais difcil do que Akiko previra. O
problema no era o fato de no conseguir se lembrar do rosto dele. O problema era
que se lembrava bem demais.
Ao comear a moldar a argila com as feies do estrangulador, reviveu todo o
pesadelo. Podia recordar cada palavra do encontro.
- Chove muito, no ?
- Infelizmente.
- Est de carro?
- No.
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-  uma pena. Pelo menos estou de guarda-chuva. Mora aqui perto?
- A meia dzia de quarteires...
Ela estremeceu, pensando a respeito. Por pouco no fora assassinada. Queria que o
estrangulador fosse preso, e faria o possvel para ajudar na captura. E tratou de se
concentrar no trabalho.
Sekio Takagi estava na sala do inspetor West
- Quer dizer que a testemunha  pintora?
- Escultora. Faz esttuas.
- E ela pode esculpir uma cabea do estrangulador?
- Pode. Est trabalhando nisso agora.
- Sabe que ela se encontra numa posio muito perigosa, no  mesmo?  a nica
que pode identific-lo. Se ele descobrir quem ela , iria at l para mat-la. Devemos
dar-lhe proteo policial.
- J ofereci, mas ela no quer - explicou Sekio. - Pretendo mandar algum dar
uma olhada de vez em quando, para se certificar de que ela est bem. Assim que ela
acabar de esculpir a cabea, sugerirei que deixe a cidade, passe algum tempo fora,
at encontrarmos o estrangulador.
-  uma boa idia.
- A previso do tempo  de chuva para esta noite - acrescentou Sekio. - Ele
pode atacar de novo. Eu gostaria de voltar a pr os homens de vigia no
supermercado Mayfair.
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O inspetor West acenou com a cabea. - Prenda-o!
Alan Simpson tambm vira o retrato de Akiko na primeira pgina do London
Chronicle. A foto era bastante ntida. Dava para ver at as marcas da corda em
seu pescoo, onde ele apertara, estrangulando-a... at que aparecera aquele
estpido motorista de txi, obrigando-o a fugir. Fora o seu primeiro fracasso.
No podia permitir que aquela mulher continuasse viva para testemunhar contra
ele. O jornal no deu seu nome e endereo, mas descobrirei de alguma forma,
pensou Alan Simpson. Assim que encontr-la, terminarei o que comecei.
Ele sentia-se frustrado e furioso com a mulher por ter escapado. Mas ainda vou
peg-la, prometeu a si mesmo. Agora, porm, precisava de outra vtima. A
previso do tempo era de chuva. timo. Voltarei ao supermercado Mayfair e
encontrarei outra mulher esta noite.
O sargento Sekio Takagi correu os olhos pelo supermercado para verificar se
todos os seus homens se encontravam nos postos designados. Alguns
trabalhavam por trs dos balces. Outros fingiam ser fregueses, circulando
pelos corredores, tentando dar a impresso de que faziam compras.
Chovia bastante. Um homem alto e magro entrou no supermercado. Carregava
um guarda-chuva.
70
Comeou a circular, examinando as mercadorias nas prateleiras. Os nervos de Sekio
ficaram tensos. Seria o estrangulador? Ele fez sinal aos policiais para que
ficassem de olho no homem.
Alan Simpson olhou ao redor,  procura de sua prxima vtima. Havia muitas
mulheres no supermercado fazendo compras para seus maridos e
companheiros. Uma delas no vai chegar em casa, pensou Alan Simpson. Qual
ser?
Ele sentia-se como Deus ao escolher sua vtima, decidindo quem viveria, quem
morreria. Era um sentimento maravilhoso. Uma gorda, sem guarda-chuva, de
cinqenta e poucos anos, comprava doces no balco da pastelaria.
Ela j comeu o suficiente, pensou Alan Simpson.  a escolhida. Ele se
encaminhou para a sada. Sekio o observava atentamente agora, preparado para
det-lo. A gorda pagou os doces, foi para a porta do supermercado. Parou ali,
olhando para a chuva.
- Mas que coisa horrvel! - disse ela, em voz alta. - No trouxe meu
guarda-chuva!
Alan Simpson sorriu. Abriu a boca para dizer "Deixe-me ajud-la", e foi nesse
momento que notou que um dos funcionrios por trs de um balco o
observava. Correu os olhos ao redor e percebeu que outros homens o
observavam. So da polcia!, pensou ele.  uma armadilha. Havia policiais
por toda a parte, s que no tinham como saber quem ele era. A mulher
acrescentou:
71
- Vejo que tem um guarda-chuva. Moro a apenas um quarteiro daqui. Ser
que podia...
- Lamento muito-disse Alan Simpson -, mas vou me encontrar com minha
esposa. Boa noite.
Ele virou-se e deixou o supermercado. Sekio Takagi ficou desapontado. Por um
momento, chegara a pensar que descobrira o assassino, mas era evidente que se
tratava do homem errado. Ele fez sinal para que os detetives relaxassem.
L fora, na rua, o corao de Alan Simpson batia acelerado. A polcia
descobrira sobre o Mayfair. E quase o pegara. Mas no deixaria que isso
acontecesse outra vez. Claro que continuaria a matar... s que escolheria outro
supermercado.
Enquanto isso, preciso descobrir o nome da testemunha que pode me identificar.
Ela deve morrer.
72
Captulo Sete
sargento Sekio Takagi teve outra reunio com o inspetor West
- Sua teoria no funcionou-comentou o inspetor. - O estrangulador no foi
ao supermercado Mayfair ontem  noite. Todos os detetives desperdiaram seu
tempo ali.
Sekio se mostrou insistente:
- Se me der mais tempo, inspetor, tenho certeza de que ele acabar
aparecendo naquele supermercado.
- Como sabe que ele tambm no escolhe vtimas em outros supermercados?
- Em primeiro lugar, todas as mortes ocorreram naquela rea. Segundo,
sabemos que ele encontrou duas de suas vtimas no Mayfair. Lembra que disse
que os assassinos de srie seguem um padro? Pois esse  o padro de nosso
homem.
73
O inspetor West pensou a respeito por um momento.
- Muito bem, eu lhe darei mais trs dias. Mas se no houver qualquer
progresso at l, terei de tir-lo do caso.
Sekio no queria sair do caso, e um dos motivos era seu desejo de proteger
Akiko. No conseguira deixar de pensar nela.
J conhecera muitas mulheres bonitas, e algumas se sentiram atradas por ele,
queriam at casar. Mas Sekio nunca se apaixonara por nenhuma. E sabia que
nunca se casaria, a menos que estivesse profundamente apaixonado. A nica
pessoa por quem j experimentara uma forte atrao era Akiko. Queria
conhec-la melhor. Por isso, disse agora ao inspetor West:
- Eu compreendo, inspetor. Mas tenho certeza de que pegaremos o
estrangulador bem depressa.
Akiko tambm no conseguira parar de pensar em Sekio. No apenas porque
ele era bonito-j conhecera inmeros homens atraentes - mas tambm
porque era gentil. Era atencioso, preocupado, e parecia inteligente. Essas eram
as qualidades que Akiko procurava num homem.
Queria acabar logo de esculpir a cabea do estrangulador, no apenas para o
seu prprio bem, mas porque sabia que isso ajudaria Sekio. E, por isso, ela
permaneceu em seu ateli, trabalhando com afinco.
Embora tivesse dificuldade para reconstituir as feies
74
do monstro horrvel que tentara mat-la, ela persistiu. Em sua mente,
podia ver com clareza o rosto do assassino.
Pegou um pedao grande de argila, ps na bancada e comeou a moldar as
feies.
Primeiro, a testa e o nariz. Depois, moldou a argila nos olhos e boca
do estrangulador. Recuou, avaliou o trabalho. No. Os olhos ficaram muito
grandes e o nariz muito pequeno. Ela alisou a argila nesses pontos e
recomeou.
Gostaria que a argila no parecesse viva cada vez que a tocava. Havia algo
diablico naquilo. Era como se o esprito do assassino estivesse na argila,
tentando sair.
Akiko experimentava a sensao de que, ao acabar, o estrangulador saltaria em
sua direo e a agarraria. Sabia que era um absurdo, mas por algum motivo no
podia descartar o sentimento.
No era supersticiosa, mas havia algo na argila que no podia explicar. Nunca
experimentara nada assim antes.
Algum bateu  porta. Akiko foi at l, mas no a abriu.
- Quem ?
- Sou eu, Sra. Goodman.
Akiko abriu a porta para avizinha. A Sra. Goodman fitou-a e disse:
- Graas a Deus que voc est bem!
- Como?
75
- Vi sua foto no jornal e li que o estrangulador tentou mat-la. Oh, minha
pobre criana! Eu no sabia. Deve ter sido horrvel para voc.
- E foi mesmo - admitiu Akiko. - Pensei que ia morrer.
- Como era o estrangulador?
Akiko pensou por um momento. Como podia descrever todo o mal que o
homem irradiava? Como podia descrever o sorriso no rosto dele, enquanto
tentava assassin-la? Como podia descrever seu prprio terror?
- Ele era jovem.
- E feio?
Por dentro, pensou Akiko. Era feio por dentro.
- No. Era at bonito. Se o visse andando pela rua, nunca poderia imaginar
que era um estrangulador. Havia uma espcie de... quase que uma certa
inocncia nele.
A Sra. Goodman arregalou os olhos.
- Mas que coisa! Como o conheceu? Isto ... como ele a atacou?
- Fui fazer compras. Comeou a chover, no tinha levado o guarda-chuva, ele
estava de guarda-chuva e se prontificou a me acompanhar at em casa.
Enquanto falava, Akiko se perguntou se no estaria dizendo coisas demais, se o
sargento Takagi gostaria que ela discutisse o caso com algum. Mas a Sra.
Goodman era uma amiga de confiana.
- Caminhamos para c e passamos por uma rua escura.
77
- Akiko estremeceu. - Ele me atingiu nas costas com a ponta do
guarda-chuva e larguei as compras. Antes que eu pudesse perceber o que
acontecia, ele passou uma corda em torno do meu pescoo.
O rosto da Sra. Goodman transmitia uma profunda compaixo.
- O que aconteceu em seguida?
- Isso  tudo de que lembro. Devo ter desmaiado. Soube depois que minha
vida foi salva porque um txi entrou na rua, o motorista viu o que acontecia,
parou, e o estrangulador fugiu.
A Sra. Goodman fitou-a nos olhos.
- Tenho uma idia. Por que no passa as prximas noites comigo? Tenho
lugar de sobra no meu apartamento.
-  muita gentileza sua, mas no posso. Tenho um trabalho a fazer aqui.
- No pode esperar?
Akiko pensou no sargento Takagi, esperando que ela conclusse a cabea do
estrangulador.
- No, infelizmente no pode. A Sra. Goodman suspirou.
- Se mudar de idia, basta me avisar. No quero que nada lhe acontea.
Akiko sorriu. Tambm no quero.
- No se preocupe. Nada vai me acontecer. O Sargento Takagi no deixar.
78
Alan Simpson sentia-se furioso. No podia acreditar que deixara a vtima
escapar. Se aquele txi no tivesse aparecido... Seja como for, no podia
permitir que ela continuasse viva para identific-lo. Precisava encontr-la de
alguma forma e mat-la.
Cem anos antes, em Londres, existira um criminoso famoso, conhecido como
Jack o Estripador. Ele tambm aterrorizara a cidade, matando uma dzia de
mulheres. Nunca fora apanhado, e por causa disso se tornara imortal. As
pessoas ainda falavam nele.
De algum modo estranho, Alan Simpson pensava em si mesmo como Jack o
Estripador, um criminoso lendrio, e estava convencido de que nunca seria
apanhado. Algum dia, daqui a anos, morreria de velhice, sem que ningum
jamais soubesse quem ele era. E por mais um sculo as pessoas falariam sobre
o misterioso estrangulador, que fora esperto demais para se deixar capturar pela
polcia.
Enquanto caminhava pela rua, Alan Simpson sentiu uma gota de chuva. Graas
a Deus, era a poca de chuva em Londres.
Precisava de outra vtima. Tinha de descarregar a raiva do organismo. Punir a
me mais uma vez. Ainda podia recordar tudo com absoluta nitidez, ele parado
na chuva, vendo a me beijar um estranho e a ira quase o sufocara.
Olhou ao redor. Teria de procurar outro supermercado. Agora que a polcia
descobrira o Mayfair, no ousava voltar l.
79
Haveria muitos policiais vigilantes,  sua espera. E tudo
porque aquela desgraada escapou!
A chuva aumentou, e ele sentiu o excitamento crescer. Havia um supermercado
a poucos quarteires do lugar onde morava. Mas no queria procurar uma
vtima ali, pois era o lugar onde costumava fazer suas compras, e poderiam
reconhec-lo.
Em vez disso, percorreu dez quarteires na outra direo, at chegar a um
supermercado menor. Entrou, olhou ao redor, com extrema ateno. Desta vez
procurava por policiais que pudessem estar ali, esperando para fechar uma
armadilha. No havia ningum suspeito. Um funcionrio aproximou-se.
- Deseja alguma coisa?
Alan Simpson sentiu-se tentado a dizer: Desejo, sim. Quer escolher uma
mulher simptica que eu possa assassinar esta noite? Mas  claro que ele no
falou isso, mas sim:
- Obrigado, mas estou apenas dando uma olhada. Ainda no decidi o que
quero para o jantar.
Era sempre divertido tentar adivinhar o que teria para o jantar. O que estivesse
na bolsa de compras da vtima. Uma noite havia costeletas de cordeiro, que ele
apreciava. Em outra, peixe, de que no gostava muito. Ficara contente por
matar a mulher com o peixe. Uma lio bem merecida por comprar peixe.
Agora, ele observou as pessoas fazendo compras.
80
Havia trs homens e meia dzia de mulheres, uma delas andando com uma
bengala. Essa seria fcil demais, pensou Alan. Outra mulher era acompanhada
por duas crianas pequenas. Seus olhos continuaram a se deslocar, at
avistarem o que procuravam.
Uma jovem que parecia um pouco com a me dele. Perfeito! Ela no tinha
guarda-chuva. Estava no balco de carnes, e Alan torceu para que comprasse
alguma coisa que fosse do seu gosto.
Observou-a se encaminhar para a sada e tratou de segui-la. A jovem parou na
porta, olhando para a chuva. Alan foi se postar ao seu lado.
- Chove muito, no ? - murmurou ele.
- E eu no trouxe o guarda-chuva.
- Tenho o meu. Mora aqui perto?
- A poucos quarteires. Mas detestaria incomod-lo.
- Para que lado voc mora?
- Naquela direo - apontou a jovem. Alan sorriu.
- Tambm moro naquela direo. Por que no vamos andando juntos?
-  muita gentileza sua.
- Ora, no ser grande coisa. Saram para a rua.
- Posso ajud-la com as compras? - perguntou
Alan.
81
- Obrigada, mas no precisa. No esto muito pesadas.
NenKuma delas o deixara carregar suas compras,
- Mora aqui perto? - indagou a mulher.
- Moro - mentiu Alan.
- No acha que  um timo bairro? Ele acenou com a cabea.
- , sim. Gosto muito daqui. Aproximavam-se de um trecho escuro da rua, e o
corao de Alan comeou a bater mais depressa. Dentro de poucos minutos,
descobrirei o que terei para jantar. Sentia-se faminto. Matar algum sempre o
deixava com fome.
- Viramos na esquina - disse a mulher. Viraram na esquina e foram seguindo
por uma rua
que era ainda mais escura do que as outras. Alan certificou-se de que no havia
ningum  vista. Desta vez no haveria nenhum txi para interromper seu
trabalho
Ele esperou at alcanarem o meio do quarteiro, onde a escurido era ainda
maior. Retardou-se para golpear a mulher com a ponta do guarda-chuva.
- Olhe s! - disse ela de repente. - Parou de chover.
Alan estacou, surpreso. Levantou os olhos. Era verdade. A chuva cessara. Ele
ficou imvel, sem saber o que fazer. Viu-se parado na chuva, observando ame
82
beijar um estranho. Podia sentir as gotas carem em seu rosto, encharcarem o
corpo. Agora, no havia mais chuva. A mulher o fitava.
- Est se sentindo mal?
Preciso da chuva, pensou Alan. No posso matar sem a chuva.
- Est passando mal? Alan forcou um sorriso.
- No, estou bem.
Ele baixou o guarda-chuva, e continuaram a andar. Sentia-se frustrado e
furioso. Poderia ter deixado a mulher de imediato, mas isso pareceria suspeito.
Por isso, continuou a acompanh-la at o prdio onde ela morava.
- Muito obrigada - disse a mulher.
- No h de qu.
A mulher nunca saberia o quanto estivera prximo da morte naquela noite.
83
Captulo Oito
sargento Sekio Takagi e seus homens permaneceram no supermercado Mayfair at
cinco horas da manh. Como o estrangulador ainda no tivesse aparecido, Sekio
decidiu suspender a vigilncia.
- Podem ir todos para casa. Ele no vir.
Sekio sentia-se desanimado. Tinha uma certeza quase absoluta de que estava na
trilha do estrangulador. Devo ter-me enganado, pensou. No podia imaginar que o
estrangulador percebera a presena da polcia e fugira.
Sekio foi para casa e mergulhou num sono de que muito precisava. Sonhou com
Akiko. Estavam casados, moravam num lindo apartamento. Ele sorria ao acordar.
Fez a barba, tomou um banho de chuveiro e vestiu-se. Especulou se Akiko
progredira bastante com a cabea do estrangulador.
84
Telefonou para ela, que reconheceu sua voz no mesmo instante.
- Aqui  o sargento Takagi.
- Eu j sabia.
Ele ficou satisfeito por saber que Akiko era capaz de reconhecer sua voz. Perguntou
como ia a escultura.
-  mais difcil do que eu previa - respondeu Akiko.
Ela relutava em confessar o que estava lhe acontecendo. A cabea do estrangulador
parecia algo maligno. Cada vez que comeava a trabalhar nela, dava a impresso de
que adquiria vida. Quando fizera os olhos, pareciam fit-la fixamente. Quando
fizera os lbios, pareciam se contrair num sorriso sarcstico. Comeara a moldar o
rosto vrias vezes, sempre experimentava uma sensao de medo e apagava tudo.
Agora, ao telefone, disse apenas:
- Estou tendo alguma dificuldade.
- Lamento saber disso.
Sekio contava com ela para saber como era o rosto do estrangulador o mais depressa
possvel.
- No se preocupe - disse Akiko. -Vou termin-la de qualquer maneira, s que
demorar um pouco mais do que imaginei. Talvez eu possa conclu-la amanh.
- Est bem. Posso passar por a amanh, para ver como est a escultura?
- Claro.
Ao desligar, Akiko pensou: Gosto muito dele.
85
E me pergunto se tornarei a v-lo algum dia, depois que tudo isso acabar. Ela
esperava que sim.
Voltou ao ateli e parou ali, contemplando a massa de argila que transformaria
no rosto do estrangulador de Londres.
Comeou a trabalhar. Mais uma vez, algo a fez hesitar. No conseguirei fazer,
no agora, pensou ela. Tenho de sair de casa por algum tempo. Preciso
respirar um pouco de ar fresco.
Akiko perambulou pelas ruas de Londres, procurando no pensar no
estrangulador. Foi at Picadilly Circus, onde ficavam todos os teatros. Imensos
cartazes em non brilhavam nos prdios, anunciando as diversas produes em
exibio.
Era um lugar movimentado, e ela gostava de observar as multides. Os teatros
eram maravilhosos. Provavelmente os melhores do mundo. Akiko vira
Lawrence Olivier se apresentando no palco, em Hamlet. Tambm vira John
Giulguld e Maurice Evans.
Os britnicos so os melhores atores do mundo, pensou Akiko. Em diversas
ocasies, produtores haviam-lhe oferecido papis em filmes ou peas de teatro.
Mas Akiko recusara todas as propostas.
- Deveria aceitar - dissera o pai. - Atores ganham muito dinheiro.
- No sou uma atriz, e sim uma escultora.
- Pode se tornar uma atriz.
86
- No creio. Acho que uma mulher tem de nascer atriz.
- Isso  bobagem.
Mas Akiko acreditava sinceramente que uma pessoa tinha de nascer com
talento, quer fosse para representar, escrever ou esculpir. Era uma ddiva de
Deus. Sentia-se grata por ter seu talento. Adorava esculpir esttuas.
H algum tempo que Akiko no visitava a galeria de arte que vendia suas
obras. Decidiu ir at l. O dono, Sr. Yohiro, ficou feliz em v-la. Era baixo,
magro, com movimentos pequenos e rpidos. Fazia Akiko pensar num
passarinho.
- Estou contente que tenha vindo - disse ele. - Todo o seu trabalho vende
muito bem, e h sempre pessoas pedindo por mais.
- Isso  timo.
- Estar preparada para fazer outra exposio, daqui a duas semanas?
- Claro - respondeu Akiko.
Ela no mencionou que vinha trabalhando na cabea do estrangulador. O Sr.
Yohiro esfregou as mos em satisfao.
- Ser maravilhoso! Meus clientes ficaro muito felizes. E no se esquea de
que precisa fazer a esttua de Vnus.
- No esquecerei.
Preciso concluir logo a cabea do estrangulador, pensou Akiko,
87
a fim de poder me dedicar a todas as outras coisas que quero fazer.
O Sr. Yohiro convidou-a para almoar.
Foram a um pequeno pub ali perto. Akiko gostava dos pubs de Londres. A comida
era simples, mas saborosa, e todos se mostravam cordiais. Muitos pubs tinham
tbuas de dardos, e de vez em quando ela jogava, pois descobrira que era muito boa
nisso. Depois que pediram a comida, o Sr. Yohiro disse:
- Sinto o maior orgulho de voc. Compreendi desde o incio que era muito
talentosa e que se tornaria um grande sucesso. E voc no me desapontou.
- Obrigada. Adoro meu trabalho. Se no me cansasse, e precisasse dormir, acho
que trabalharia noite e dia. - Akiko sorriu. - Pode parecer uma tolice, mas me
sinto como Deus dando vida  argila.
Akiko,  claro, no tinha a menor idia de que Alan Simpson sentia-se como Deus
porque era capaz de levar a morte s pessoas.
- Sua exposio daqui a duas semanas ter um xito ainda maior do que a anterior.
Provavelmente vou perd-la muito em breve para uma galeria maior.
- Nada disso - prometeu Akiko. - Foi voc quem me ajudou no incio e
continuarei em sua galeria. Lealdade para mim  uma coisa muito importante.
- No quero bisbilhotar sua vida pessoal, mas
estou curioso.  uma moa bonita e sempre est sozinha quando a vejo. No tem um
namorado? Akiko sacudiu a cabea.
- No. J sa com vrios homens, mas no encontrei nenhum por quem me
interessasse realmente.
Mesmo enquanto falava, ela pensou:  exceo do sargento Takagi. Gostaria
de saber se ele tem uma namorada. Espero que no. E acrescentou para o Sr.
Yohiro:
- Quero casar um dia e ter filhos. Mas casar por casar  um erro. Acho que duas
pessoas devem se apaixonar primeiro.
O Sr. Yohiro acenou com a cabea.
- Concordo. Minha esposa e eu estamos casados h trinta anos e somos muito
felizes.
Ficaram conversando sobre arte e diversos pintores que haviam exposto na galeria,
mas ele no mencionou o estrangulador a Akiko. Ela compreendeu que o Sr. Yohiro
no vira sua foto no jornal. Se tivesse visto, falaria a respeito com toda a certeza.
Akiko decidiu que tambm no mencionaria o assunto.
Afinal, tudo acabaria muito em breve. Concluiria a escultura da cabea do
estrangulador, entregaria ao sargento Takagi, e o homem seria preso num instante.
- Gostaria de voltar  galeria? - perguntou o Sr. Yohiro.
- No, obrigada. Preciso retornar ao trabalho. Voltar  cabea do estrangulador.
Akiko no se sentia
ansiosa por isso.
89
- Gostei de almoar com voc. Obrigado pela companhia.
- Eu tambm gostei. Voltaremos a nos ver em breve.
O Sr. Yohiro pagou a conta e saram para a rua.
- At breve.
- At breve.
O Sr. Yohiro observou Akiko se afastar e pensou:  uma moa adorvel, e
talentosa ainda por cima.
Ao chegar  galeria, ele se lembrou subitamente de algo de que esquecera. No
lhe falara sobre o cartaz que mandara fazer para a exposio. Era um lindo
cartaz, com uma foto de Akiko, dizendo:
AKIKO KANOMORI
EXPOSIO DE ARTE
12 A17 DE NOVEMBRO
Vou coloc-lo na vitrine agora, decidiu o Sr. Yohiro, feliz. Foi at a sala dos
fundos, pegou o cartaz e colocou-o na vitrine da galeria.
Cinco minutos depois, Alan Simpson passou por ali. Quase no viu o cartaz,
mas no ltimo segundo, quando j comeava a se afastar, percebeu-o pelo
canto dos olhos e parou.
90
No podia acreditar em sua sorte. Ali, na sua frente, estava o retrato da testemunha
desconhecida. A nica pessoa no mundo que poderia identific-lo para a polcia.
Alan Simpson sorriu. Portanto, seu nome era Akiko Kanomori, uma artista. Uma
artista morta. Ele entrou na galeria. O Sr. Yohiro adiantou-se para cumpriment-lo.
- O que deseja?
- Sou um reprter de jornal - mentiu Alan Simpson -, e um grande admirador da
obra da Srta. Kanomori.
- Todos somos. Ela  uma artista extraordinria.
- Concordo. Meu jornal encarregou-me de entrevist-la. Ela far uma exposio
aqui muito em breve, no ?
- Isso mesmo. Acabamos de pr o cartaz na vitrine.
- No vi.  at melhor assim, no acha? A entrevista ajudar a exposio. Uma boa
publicidade. Se quiser me dar o endereo dela...
- No sei se devo. A Srta. Kanomori  muito tmida. No gosta de dar entrevistas.
- Esta s vai levar alguns minutos. E prometo que ser bastante favorvel.
O jovem era simptico, e o Sr. Yohiro cedeu.
- Est bem. Ela mora na Pont Street, 2.422.
92
- Obrigado. Terei o maior prazer em conhec-la pessoalmente.
Alan Simpson lanou um ltimo olhar para o Sr. Yohiro e pensou: Receio que
no ter a exposio, no final das contas. Sua artista vai morrer.
93
Captulo Nove
esperou diante do prdio, nas sombras, onde no poderia ser visto. Em algum
lugar daquele prdio encontrava-se a mulher que ele mataria. No podia
imaginar por que a polcia ainda no tinha sua descrio. Esperarei at esta
noite, pensou Alan Simpson, e depois cuidarei dela.
O inspetor West mandou chamar Sekio outra vez.
- Disse que a testemunha era escultora e ia fazer uma cabea do
estrangulador.
- Isso mesmo, senhor.
- E onde est? Por que ainda no a temos? Sekio hesitou.
- Ela est trabalhando nisso, inspetor.
- Precisamos agora. Quero mandar uma foto para
94
todos os policiais de Londres. No podemos esperar at que ele torne a matar.
- Eu compreendo, senhor, mas...
- Diga a ela que queremos que termine ainda hoje. Est me entendendo?
- Sim, senhor.
- No quero mais receber nenhum telefonema da rainha.
- Certo, senhor.
SekiTakagi voltou para sua sala. O detetive Blake estava ali.
- O que o chefe queria?
- Quer que a cabea do estrangulador seja concluda hoje. Mandou que a
descrio do estrangulador seja divulgada o mais depressa possvel.
- Por que ela est demorando tanto?
- No sei - admitiu Sekio. - Vou telefonar para ela.
Akiko atendeu ao primeiro toque do telefone. De alguma forma, j sabia quem
era.
- Srta. Kanomori? Aqui  o sargento Takagi.
- Eu sabia.
A voz era efusiva.
- Detesto pression-la, mas h alguma possibilidade de a escultura da cabea
do assassino ficar pronta ainda esta noite? O inspetor West est muito ansioso.
Quer espalhar as fotos logo de uma vez.
Akiko escutou o pedido com um aperto no corao.
95
Em circunstncias normais, acabaria de moldar a cabea at a noite com a
maior facilidade. Mas se sentia assustada com a maldade misteriosa que
parecia se irradiar da argila. Teve medo de falar a Sekio a respeito porque
parecia uma tolice.
- Claro que sim. Posso termin-la at esta noite.
- Isso  maravilhoso!
Ela pde perceber a satisfao na voz de Sekio.
- Posso ir busc-la esta noite. - Ele fez uma pausa, quase com medo de
continuar, respirou fundo.-Talvez, para comemorar, pudssemos jantar fora.
O corao de Akiko disparou de alegria. - Seria timo.
Ela teve de fazer um esforo para no deixar transparecer como se sentia
excitada pela perspectiva.
- Ento est combinado. A que horas acha que ficar pronta?
Akiko olhou para a massa de argila na bancada de trabalho.
- Por volta das sete horas.
- timo. Aparecerei a a esta hora. At l.
- At l.
Ela desligou, exultante. Jantaria com o simptico sargento. Virou-se para a
argila e sua expresso mudou.
Prometera aprontar a escultura, e agora teria de faz-lo. Respirou fundo e se
adiantou.  apenas uma massa slida de argila, disse Akiko a si mesma. No
h nada de diablico nela. Mas sentia medo de toc-la.
96
Lentamente, comeou a trabalhar. Moldou a argila num rosto, comeou a
detalhar as feies. Fez os olhos, de que se lembrava to bem, o nariz, os
lbios. Enquanto a cabea assumia forma, o mal que se irradiava da argila
parecia povoar a sala, deixando-a sufocada.
Estava no meio do trabalho quando no pde mais suportar. Deixou o ateli e
correu para o apartamento da Sra. Goodman. O corao batia forte, sentia que
podia desfalecer a qualquer instante. Como poderia explicar que fugira de uma
massa de argila? A Sra. Goodman abriu a porta.
- Ol, minha cara. Eu ia tomar um caf neste momento. No quer me
acompanhar?
- Obrigada. Ser um prazer.
Akiko acomodou-se na confortvel cozinha da Sra. Goodman. Seu corao
ainda batia forte. O que h de errado comigo?, especulou ela. Nada parecido
jamais lhe
acontecera antes.
A Sra. Goodman serviu o caf. Estava delicioso. Akiko poderia passar o dia
inteiro ali. Detesto voltar ao ateli, mas preciso terminar a escultura da
cabea. Prometi que ficaria pronta at as sete horas.
- Tem certeza que no gostaria de passar alguns dias aqui? - perguntou a
Sra. Goodman.
Akiko sorriu. A Sra. Goodman era uma vizinha tima.
- No, obrigada. No posso.
97
Ficaram sentadas ali, conversando, por uma hora. Ao se sentir mais relaxada,
Akiko disse:
-  melhor eu voltar ao trabalho agora. Estou tentando terminar uma
escultura.
-  s avisar se precisar de alguma coisa, minha querida.
- Obrigada.
Akiko voltou ao ateli.
Alan Simpson foi fazer compras numa loja de departamentos. Um funcionrio
aproximou-se.
- Deseja alguma coisa, senhor?
- Preciso de uma corda.
Ele perdera sua corda em algum lugar e no conseguira encontr-la. Era um
mau pressgio. Alan Simpson era muito supersticioso.
- De que tipo de corda gostaria? Isto , para que precisa?
Para matar mulheres, seu idiota.
- Para amarrar coisas. Quero uma corda grossa e resistente.
Uma corda que se ajuste em torno do pescoo daquela mulher e a sufoque.
- Venha comigo, por favor, senhor.
Ele conduziu Alan Simpson a uma seo que oferecia os mais diversos tipos de
cordas, de barbante a cordas bastante grossas. Alan Simpson escolheu uma
corda bem resistente e deu-lhe um puxo.
98
- Esta serve - anunciou ele.
- Pois no, senhor. Custa quatro libras.
- Se no fez planos para esta noite - disse o detetive Blake -, minha
namorada tem uma amiga muito bonita. Por que no samos juntos para jantar?
Sekio sorriu.
- No posso.
Nada no mundo poderia impedi-lo de jantar com Akiko. No pensara em outra
coisa durante o dia inteiro. Ela parecia bastante satisfeita quando ele telefonara.
Foi imaginao minha?, especulou Sekio. Ou ela ficou realmente contente de
me ouvir?
Precisava tomar cuidado para no precipitar as coisas. No quero assusta-la. Acho
que j estou apaixonado por ela. Mas se lhe disser isso, ela pensar que sou louco e
vai se afastar. Isso mesmo, preciso ser cauteloso.
- Obrigado, mas estarei ocupado esta noite - acrescentou ele para o detetive
Blake.
- Vai se arrepender. Minha namorada me disse que a amiga dela  uma
beleza.
Sekio no tinha o menor interesse em conhecer outra mulher. No agora. J
encontrara a mulher que queria. Mas ser que ela tambm me quer?, pensou
ele.
Em seu ateli, Akiko trabalhava na escultura da cabea do estrangulador. J
fizera a testa, o nariz e os olhos, e agora se ocupava com os lbios.
99
Sua concentrao era to intensa que teve um sobressalto quando o telefone tocou.
Ele voltou a tocar. Ela foi atender.
- Al?
Houve silncio no outro lado da linha.
-Al?
Ningum respondeu. Akiko franziu o rosto. Tinha certeza que havia algum na linha.
- Quem est a?
Silncio. Lentamente, ela reps o fone no gancho. Percebeu que era difcil voltar ao
trabalho. O telefonema deixara-a nervosa. Recomeou a moldar os lbios mas suas
mos tremiam.
- Pare com isso! - ordenou a si mesma.
Mas no foi capaz de se controlar. Todo o corpo tremia.
No outro lado da rua, Alan Simpson estava numa cabine telefnica, olhando para a
janela iluminada e sorrindo. Ela parecera apavorada. No chovia agora, mas o jornal
dizia que a chuva viria naquela noite. E seria o momento em que atacaria.
s sete horas, Sekio parou o carro diante do prdio onde Akiko morava. Vestia um
terno cinza novo. Pensara em levar flores para ela, mas achara melhor no se
precipitar. Seria mais uma visita oficial. Tocou a campainha do apartamento.
Ao ouvi-la, Akiko entrou em pnico. Olhou para o relgio.
100
Eram sete horas da noite e s podia ser Sekio! Ela no sabia o que fazer.
No conseguira continuar o trabalho na esttua de to tensa.
Mas s faltavam os lbios. J sei o que vou fazer, pensou Akiko. Sairemos
para jantar primeiro, e quando voltarmos pedirei a ele para entrar e ficar
comigo enquanto termino a cabea. S assim no terei medo.
Ela passou do ateli para a sala de estar e abriu a porta do apartamento. Sorriu para
Sekio. Ele era to bonito!
- Boa noite.
- Boa noite - disse Sekio. - Posso ver a escultura agora?
Akiko tocou em seu brao.
- Se no se importa, podemos sair para jantar primeiro? Ainda no a conclu.
Terminarei depois do jantar e poder lev-la - disse ela.
Sentiu vergonha de confessar que no acabara o trabalho porque ficara com medo.
Mas com Sekio ao seu lado no teria medo.
- No tem problema. Vamos jantar agora e voltaremos em seguida. Tenho certeza
que uma ou duas horas a mais no faro a menor diferena.
- O inspetor West teria a cabea do estrangulador at meia-noite. Sekio
providenciaria para que fossem tiradas fotos e as espalharia por toda a cidade. No
restaria mais nenhum lugar para o estrangulador se esconder.
- Vou pegar minha bolsa.
101
Trs minutos depois estavam no carro a caminho de
um restaurante.
- Espero que goste do lugar que escolhi - disse Sekio. -  considerado um dos
melhores restaurantes de Londres. Chama-se Harry's Bar.
O Harry's Bar era s para os scios do clube. Mas o pai de Sekio era scio, e
conheciam o filho. Ele era sempre bem recebido ali.
Seguiram para o restaurante em silncio. Akiko pensava na escultura que tinha de
concluir, e Sekio pensava na linda mulher ao seu lado. Entraram no restaurante e
foram sentar a uma mesa nos fundos.
- O cardpio  promissor - comentou Akiko. Na verdade, ela no sentia a menor
fome. Estava
nervosa demais por causa do estrangulador e excitada pela companhia de Sekio.
- Por que no escolhe a comida para ns dois? - sugeriu ela.
- Terei o maior prazer.
Sekio pediu coquetel de camaro para comear, depois escalopinho de vitela com
macarro, acompanhado por um vinho tinto. Resolvido esse problema, os dois
comearam a conversar.
- Fale-me de sua vida - pediu Sekio. Ela sorriu.
- Nasci em Quioto e estudei na universidade local. Meu pai tinha um negcio em
Londres, e por isso nos mudamos para c.
102
Sa de casa porque meu pai e minha me viviam insistindo que eu
deveria casar logo.
- E no quer casar?
- Claro que quero! - Akiko corou, e pensou: Ser que falei demais?-Apenas
estou esperando pelo homem certo. - Fitou Sekio nos olhos enquanto dizia isso.
Ele sorriu. Sentia uma felicidade imensa. Sabia que era o homem certo para Akiko.
Enquanto comiam, conversaram sobre vrios assuntos, e parecia que j se conheciam
fazia muito tempo. Foi um jantar maravilhoso. Ele pediu torta de sobremesa.
- No para mim - protestou Akiko. - Tenho de vigiar meu corpo.
- Pode deixar que eu o vigiarei - gracejou Sekio. Os dois riram. Finalmente
chegou a hora de ir
embora. Agora, terei de enfrentar aquela horrvel cabea, pensou Akiko. Com
Sekio ao meu lado, porm, no sentirei medo. Entraram no carro e seguiram para o
apartamento de Akiko.
Uma hora antes, Alan Simpson, parado nas sombras, observou Akiko e Sekio partirem.
Lembrou de ter visto Sekio no supermercado Mayfair. Portanto, ele 
mesmo da polcia, pensou Alan Simpson. Mas nunca vai me pegar.
Ele esperou que o carro se afastasse e depois entrou no prdio. Arrombou a porta
com uma faca. Akiko morava no apartamento 3B.
Alan Simpson subiu pela escada at o terceiro andar.
103
Parou diante da porta do 3B, olhou para um lado e outro, a fim de se
certificar de que ningum o observava. Arrombou a porta com a faca e
entrou no apartamento.
Percebeu logo que o apartamento se encontrava vazio. Ento  aqui que
aquela desgraada mora! Alan Simpson atravessou a sala, deu uma
olhada no quarto. Contemplou a cama e pensou: Ela nunca mais
dormir a.
Foi at o ateli e parou de repente, ao deparar com seu prprio rosto.
Observou-o, incrdulo. Ento  isso o que ela vinha fazendo! Esculpira
sua cabea para entregar  polcia. Verificou que ainda no estava
pronta. No lugar dos lbios, havia um buraco.
Alan Simpson se adiantou, ergueu o punho e bateu com toda a fora no
topo da cabea. A argila endurecida se espatifou e caiu no cho.  isso o
que vai acontecer com aquela mulher, pensou. Tirou o pedao de corda
do bolso. Agora, tudo o que tinha a fazer era esperar pela volta de
Akiko.
104
Captulo Dez
Sekio e Akiko eram duas pessoas muito felizes. Haviam terminado o jantar
mas nem se deram conta disso. Continuaram sentados, conversando e rindo,
no faziam a menor idia da passagem do tempo.
O restaurante encontrava-se apinhado, e outros casais esperavam por mesas. O
garom aproximou-se de Sekio.
- Deseja mais alguma coisa, senhor?
Akiko levantou os olhos e notou as pessoas  espera de mesa, lanando-lhes
olhares irritados.
- No, no queremos mais nada. Traga a conta, por favor. Acho que essas
pessoas gostariam de sentar logo.  melhor nos retirarmos.
- Pois no, senhor.
Saram para o ar fresco da noite. Sekio olhou para o cu e pensou:
106
Ainda bem que no est chovendo. Assim, o estrangulador no atacar esta
noite.
Nesse momento, no apartamento de Akiko, Alan se perguntava por que ela
demorava tanto. Ela j saiu h muito tempo, pensou ele. Sentia-se nervoso. Foi
espiar pela janela, torcendo para que Akiko voltasse o mais depressa possvel.
A previso do tempo era de chuva, mas no havia o menor sinal de que
choveria. Os idiotas no sabem o que fazem, pensou Alan. Mas por que
preciso de chuva para matar? No fundo do corao, ele sabia por qu. Queria
que tudo fosse exatamente como no dia em que descobrira a verdade a respeito
da me. Precisava da chuva para lavar os pecados de suas vtimas.
Ora, com chuva ou sem chuva, Akiko Kanomori vai morrer, pensou Alan.
Olhou para o relgio e torceu para que ela chegasse logo.
Akiko e Sekio voltavam para o apartamento. Dentro de poucos minutos,
pensou Akiko, eu lhe darei a escultura da cabea do estrangulador, ele ir
embora, e provavelmente nunca mais tornarei a v-lo. Tinha vontade de dizer:
"No quer me telefonar um dia desses?", mas no queria parecer avanada
demais. Era muito tmida. Quase como se lesse seus pensamentos, Sekio disse:
- Depois que este caso for encerrado, Akiko, talvez possamos nos encontrar
para jantar outra vez.
107
O corao de Akiko disparou em alegria.
- Eu ficaria muito satisfeita.
Sekio sorriu. Sabia que tudo daria certo. Queria a companhia daquela mulher
pelo resto da vida. Primeiro, no entanto, tinha de capturar o estrangulador.
- Sempre quis ser um policial? - perguntou Akiko. Ele sorriu.
- Desde que tinha dez anos de idade. Houve um assassinato em nosso bairro e
todos ficaram apavorados. Tnhamos medo de que o assassino voltasse para
matar mais algum. Os policiais foram muito gentis. Disseram-nos que no
precisvamos nos preocupar, que pegariam o assassino, e estaramos seguros.
Compreendi naquele momento que queria ser um policial para ajudar as
pessoas.
 espantoso!, pensou Akiko. A Histria que ele acaba de contar  exatamente
o que est acontecendo agora. H um assassino ameaando as pessoas, e
Sekio vai providenciar para que tudo acabe bem. Ela fitou-o e concluiu: Ele
no tem idia do quanto  maravilhoso.
Passaram por Kensington Gardens. Os jardins estavam deslumbrantes ao luar.
- J ouviu falar de um escritor chamado J.M. Barrie? - perguntou Sekio.
- No, no o conheo.
- Ele escreveu um livro extraordinrio, chamado Peter Pan,  a histria de
um menino que no queria crescer e por isso permaneceu jovem para sempre.
108
A me expulsou-o de casa e ele foi para a Terra do Nunca.  uma linda histria.
- Parece mesmo maravilhosa.
Akiko pensou: Sob certos aspectos, Sekio  como um menino, entusiasmado e
feliz.
Aproximavam-se de seu prdio. Dentro de poucos minutos, terminarei a
escultura e a darei a ele. Mas agora no sentia medo, porque Sekio estaria ao
seu lado enquanto trabalhava. A argila no mais a assustaria.
Estavam a dois quarteires do prdio de Akiko quando depararam com o
acidente. Um carro fora atingido por um caminho, e os destroos
espalhavam-se por toda a rua. Havia um homem cado na calada, gemendo.
O rosto de Sekio se contraiu. Ele pegou o radio-transmissor do carro e avisou:
- Aqui  o carro dezessete. Houve um acidente na Pont Street, na altura do
nmero 2.624. Mandem uma ambulncia imediatamente, por favor.
Ele desligou e virou-se para Akiko.
- Vou deix-la em casa e voltarei para cuidar disto. Estarei em seu
apartamento dentro de alguns minutos.
- No tem problema.
Akiko torceu para que o homem cado na calada ficasse bom. Sekio acelerou
o carro e parou na frente do prdio dela.
- Voltarei o mais depressa possvel, assim que puder.
109
- No se preocupe. J terei terminado a escultura quando chegar - avisou
Akiko.
Ela ficou parada na calada observando o carro se afastar. Depois entrou no
prdio.
O homem na calada no sofrer ferimentos graves. Sekio abaixou-se e verificou seu
pulso.
- Voc est bem? - perguntou ele.
- Acho que s um pouco machucado.
- Sente algum membro quebrado?
O homem apalpou os braos e as pernas.
- Parece que no. Devo ter sido lanado para fora do carro quando o
caminho me atingiu.
- Pode se mexer?
- Posso.
O homem levantou-se. Sekio examinou-o atentamente. Parecia bastante
abalado mas sem ferimentos graves.
- Uma ambulncia chegar em poucos minutos e o levar para o hospital.
- No preciso de hospital. Estou bem.-O homem olhou para o carro. -
Minha mulher vai me matar.  o carro dela.
Um carro da policia chegou ao local do acidente. Dois guardas saltaram.
- Algum ferido? - perguntou um deles.
- Acho que no - respondeu Sekio. - Por que no anota os detalhes do
acidente?
110
Ele estava ansioso por ir ao apartamento de Akifco, pegar a escultura da
cabea do estrangulador e levar para o inspetor West
- Claro.
Sekio entrou no carro e partiu para o apartamento de Akiko. Espero que ela j
tenha acabado o trabalho, pensou.
Akiko entrou no apartamento, cantarolando. A conversa com Sekio a deixara
na maior felicidade. Reinava o silncio no apartamento. Sekio chegaria em
poucos minutos. Tudo o que preciso fazer agora  concluir os lbios da
escultura e depois esquecer essa histria, pensou ela.
Foi at o ateli e parou na porta, aturdida. A cabea estava cada no cho,
espatifada em uma dzia de fragmentos.
Seu primeiro pensamento foi o de que a cabea adquirira vida e destrura a si
mesma. Antes que pudesse pensar em qualquer outra coisa, foi agarrada por trs
e sentiu uma faca encostada na nuca.
- No grite - disse Alan - ou vou mat-la agora mesmo.
Akiko ficou paralisada pelo medo.
- Por favor, no me machuque - balbuciou ela. Ele empurrou-a para dentro
do ateli.
- Quer dizer que ia mostrar isso  polcia, hein? Ela no sabia o que dizer.
- No... eu...
111
- No minta para mim!
Akiko virou-se para fit-lo. Era como se estivesse contemplando sua escultura.
O homem parecia exatamente como o recordara.
Ela escapara uma vez antes mas agora se encontrava  merc do assassino.
Preciso ganhar tempo, pensou Akiko. Sekio voltar a qualquer momento e me
salvar.
Ficou surpresa ao perceber que o estrangulador no tinha uma corda nas mos.
E se perguntou qual seria o seu plano. Tencionava mat-la com a faca? At
agora, ele s matara suas vtimas por estrangulamento.
- O policial vai voltar? - perguntou Alan. Akiko hesitou. No sabia se era
melhor responder
sim ou no.
- No.
-  melhor me dizer a verdade.
- O que vai fazer comigo?
Alan no decidira o que fazer com Akiko. Iria mat-la. Mas no sabia se seria
capaz de faz-lo se no estivesse chovendo... chovendo como no dia em que
surpreendera a me beijando um estranho.
Terei de tir-la daqui. Vou lev-la para meu apartamento e mant-la presa l
at que chova. E s ento a matarei!
Nesse momento soou uma batida  porta. Alan levantou os olhos, aturdido.
- Quem pode ser? - sussurrou ele.
- Eu... no sei.
- Mentirosa! - Alan tinha o rosto vermelho de raiva.
112
- Ele voltou, no ? Pois vou matar os dois! - Comprimiu a faca
contra a nuca de Akifco.
- No, por favor! - suplicou Akiko. - No o mate! Ela sentiu um medo
terrvel de que o estrangulador
pudesse matar Sekio. Estava mais preocupada com ele do que consigo mesma.
Alan ficou imvel, a mente funcionando a mil. Tinha de se livrar do policial.
- Ele veio buscar a esttua que fez de mim, no ?
- , sim.
- Por que no lhe deu antes?
- Ainda no tinha terminado.
Akiko tinha a esperana de que, se dissesse a verdade quele louco, ele
deixaria Sekio ir embora ileso.
- Muito bem, vai fazer exatamente o que eu mandar - disse Alan. - Quero
que diga a ele que ainda no acabou a esttua e que s ficar pronta pela
manh. Entendeu? - perguntou, nervoso.
Comprimiu a faca contra a nuca de Akiko, que pde sentir um filete de sangue.
- Entendeu?
- Entendi.
- Abra a porta s um pouco. Se fizer um s movimento em falso, esta faca
entrar em seu pescoo.
Houve uma nova batida  porta.
- Mexa-se! - sussurrou Alan.
Ele se manteve por trs de Akiko, uma das mos segurando-a pelo ombro, a
outra comprimindo a faca contra a nuca.
113
Conduziu-a at a porta. Ouviram a voz de Sekio do outro lado:
- Voc est a, Akiko?
Ela sentia a boca to ressequida pelo medo que achou que no conseguiria falar.
- Responda! - sussurrou Alan.
- Ahn... estou, sim.
- Abra um pouco a porta! - ordenou Alan. Akiko respirou fundo e entreabriu a
porta. Podia
sentir a faca na pele. O estrangulador escondia-se por trs da porta, e Sekio no
podia v-lo. Achou Akiko plida demais.
- Voc est bem? Aconteceu alguma coisa? Akiko sentiu vontade de gritar, avisar a
Sekio que o
estrangulador comprimia uma faca contra sua nuca. Queria dizer a Sekio que fugisse
para salvar-se.
- Claro que estou bem - balbuciou ela.
- Posso entrar?
Akiko abriu a boca e sentiu a faca pressionando sua nuca ainda mais.
- Por favor, perdoe-me, mas quando cheguei em casa senti um sbito cansao e no
pude terminar a esttua.
Sekio ficou desapontado.
- Entendo. Eu esperava que...
- Ficar pronta pela manh. Eu lhe telefonarei assim que acabar.
114
Havia uma expresso estranha em seu rosto. A preocupao de Sekio aumentou.
- No est passando mal, no ? Gostaria que eu entrasse e...
Akiko sentiu de novo a presso da faca.
- No! Estou realmente exausta. Tenho certeza de que me sentirei melhor pela
manh - avisou.
Tinha de mentir, mas o fazia para salvar a vida de Sekio. Se ele entrasse no
apartamento, o estrangulador o mataria.
Sekio murmurou, relutante:
- Muito bem, irei embora agora. Mas voltarei pela manh.
-  melhor assim.
Ele fitou-a em silncio por um longo momento, depois virou-se e afastou-se. Alan
empurrou a porta. - Akifco se encontrava a ss com o estrangulador.
116
Captulo Onze
Sekio no conseguiu dormir naquela noite. Ficara transtornado pelo comportamento
de Akiko. Ela se mostrara cordial e efusiva durante toda a noite. E de repente tudo
mudara quando ele voltara ao apartamento.
Em vez de convid-lo a entrar, Akiko o mandara embora. Prometera concluir a
escultura da cabea do estrangulador ainda naquela noite e depois o despachara,
alegando sentir-se cansada.
Sekio tentou reconstituir como ela se comportara durante a noite e no pde se
lembrar de nenhum momento em que demonstrasse cansao. Ao contrrio, Akiko se
mantivera alegre e animada. Era desconcertante.
E o pior, ficara numa situao difcil com o inspetor West.
117
- Eu esperava a escultura da cabea do estrangulador ontem  noite. Onde est?
Sekio engoliu em seco, muito nervoso. No queria criar problemas para Akiko.
- Lamento, senhor, mas houve um pequeno atraso. Eu lhe trarei a cabea ainda esta
manh.
-  melhor mesmo - disse o inspetor West. - No se esquea de que voc ser
afastado se o caso no for resolvido em dois dias.
- Tenho certeza que ser resolvido.
Tudo o que tinha de fazer era pegar a escultura com Akiko, fotograf-la e distribuir
as cpias. O estrangulador seria identificado por algum, com toda a certeza. Sekio
foi para sua sala.
Eram dez horas da manh. Akiko j deveria ter aprontado a escultura da cabea,
quela hora. Ele telefonou para o apartamento. Ningum atendeu. Ela deve ter
sado por alguns minutos, pensou Sekio.
Ligou de novo, meia hora depois, e mais uma vez s onze horas. Ningum atendeu.
Por que ela no ficara em casa, trabalhando na escultura da cabea do estrangulador?
E se a conclura, por que no telefonara para avis-lo? Teve o pressentimento de que
havia algo errado.  melhor dar um pulo ao apartamento. Chamou o detetive Blake
para acompanh-lo.
Akiko estava em pnico. Sabia que ia morrer e mais do que nunca queria viver.
Quando Sekio fora embora, na noite anterior,
118
o estrangulador esperara para ter certeza de que o detetive no ficara 
espreita e depois forara Akiko, sob a ameaa da faca, a ir para seu carro.
Obrigara-a a se encolher no cho, para que ningum a visse. J era de madrugada
quando chegaram ao apartamento dele em Whitechapel. Ele a levara para seu
pequeno apartamento.
Estava cheio de jornais, com reportagens sobre as vtimas do estrangulador. Ele 
louco, pensou Akiko. Preciso encontrar um jeito de escapar. Mas o homem no lhe
deu a menor chance. Ps uma cadeira no armrio e obrigou-a a sentar ali.
- Sente.
- Por favor, eu... Ele a esbofeteou.
- Faa o que estou mandando!
O estrangulador continuava com a faca na mo. Akiko sentou. Ele a amarrou, as
cordas apertando sua carne.
- Est me machucando - protestou ela. Ele tornou a esbofete-la.
- Eu disse para ficar calada!
Depois de se convencer de que Akiko no poderia fugir, ele fechou a porta do
armrio e deixou-a l dentro, no escuro. Ligou o rdio para ouvir a previso do
tempo. Finalmente ouviu o que esperava:
- ...haver oitenta por cento de probabilidade de chuva esta noite. As outras notcias...
119
Alan desligou o rdio. Queria acabar com aquilo o mais depressa possvel. Era
perigoso manter a mulher em seu apartamento. Teria de mat-la naquela noite. Sairia
com ela para a chuva, procuraria uma rua escura e a estrangularia. Imaginou como
aquele detetive se sentiria ao ver o cadver de Akiko cado na sarjeta.
Sekio bateu  porta do apartamento de Akiko. No houve resposta. Era meio-dia.
- Talvez ela tenha sado para almoar - sugeriu o detetive Blake.
Sekio franziu o rosto.
- No creio. Ela sabe o quanto preciso da escultura. Se j tivesse acabado, teria me
telefonado. E se ainda no terminou, no creio que fosse sair para almoar. - Ele se
sentia cada vez mais perplexo. - Vamos verificar se os vizinhos sabem para onde
ela foi.
Desceram para o andar de baixo. Sekio bateu  porta da Sra. Goodman.
- Desculpe incomod-la. Sou o sargento Takagi. Estou procurando pela Srta.
Kanomori.
- No a vi esta manh - informou a Sra. Goodman. - Ela costuma vir aqui para
tomar um caf, mas creio que se encontra ocupada, trabalhando em alguma coisa.
- No a ouviu sair?
- No, e de qualquer maneira no a teria ouvido.
120
-A Sra. Goodman teve uma idia. - Sei aonde ela pode ter ido.
- Aonde?
- Ela expe numa galeria perto daqui. Talvez tenha ido at l.
A Sra. Goodman deu o endereo da galeria a Sekio e o detetive Blake.
- Muito obrigado pela informao.
Cinco minutos depois, os dois estavam na galeria. Sekio viu o retrato de Akiko
na janela e ficou atordoado. Se o assassino visse isto, pensou ele, saberia
quem ela . O Sr. Yohiro cumprimentou-os na porta.
- Em que posso ajud-los?
- Sou amigo da Srta. Kanomori - disse Sekio. - Gostaria de saber se ela
est aqui.
O Sr. Yohiro sacudiu a cabea.
- No. Ela passou por aqui ontem. Almoamos juntos e conversamos sobre a
exposio dela aqui. Vai ser um grande sucesso.
- Mas no a viu hoje?
- No.
- H quanto tempo esta foto encontra-se na vitrine? - perguntou Sekio.
- Desde ontem.
Sekio sentiu um frio no corao. O estrangulador podia t-la visto.
- Sr. Yohiro, algum entrou aqui fazendo perguntas sobre a foto?
121
- No. - Ele pensou por um momento. - Isto , houve uma pessoa.
- Quem?
- Era um reprter. Queria entrevistar Akiko. Pediu o endereo dela.
- E informou-o?
- Claro. Ele era muito simptico e a publicidade ser boa para a exposio.
Sekio e o detetive Blake trocaram um olhar.
- Esse reprter apresentou suas credenciais? - indagou Sekio.
- No. Aceitei a palavra dele. Sekio virou-se para o detetive Blake:
- Vamos embora!
Akiko estava sentada no escuro, amarrada na cadeira. Fez um esforo para se
livrar das cordas; quanto mais se debatia, no entanto, mais apertadas se
tornavam. Os pulsos j sangravam. A porta foi aberta e Alan disse:
- Tenho de sair por algum tempo. Vou dar um jeito, para que no faa
qualquer barulho durante minha ausncia.
Tinha um leno grande na mo. Meteu-o na boca de Akiko e amarrou atrs da
cabea, para que ela no pudesse gritar.
- Isso vai mant-la quieta.
Akiko tentou falar, suplicar, mas as palavras no saram. Ele sorriu.
122
- Voltarei em breve.
A porta foi fechada e Akiko ficou outra vez no escuro. No vou deixar que
esse manaco me mate, pensou ela. Sekio, onde voc est? Venha me salvar!
Mas ela sabia que no havia a menor possibilidade. Sekio sequer tinha
conhecimento de seu desaparecimento, e mesmo que descobrisse, no poderia
saber para onde ela fora levada.
Se quero viver, concluiu Akiko, tenho de me salvar sozinha. Mas como? Tinha
as mos e os ps amarrados na cadeira, e a porta do armrio fora fechada. No
posso simplesmente ficar sentada aqui, decidiu ela. Tenho de fazer alguma
coisa.
Comeou a se movimentar para a frente e para trs, fazendo a cadeira balanar.
Sentia uma dor intensa, por causa das cordas apertadas, mas estava
determinada a escapar. Continuou a balanar a cadeira at que caiu contra a
porta fechada do armrio, abrindo-a.
Ficou cada no cho, amarrada na cadeira, respirando com dificuldade. Correu
os olhos pelo apartamento. Estava vazio. O estrangulador sara. Conseguira sair
do armrio mas sua situao no era muito melhor do que antes.
Precisava encontrar um meio de se livrar das cordas. Havia uma mesa de vidro
no outro lado do apartamento. Usando os ps, Akiko arrastou-se pelo cho at
a mesa, puxando a cadeira. Tinha as mos amarradas nas costas.
Ao chegar  mesa, estendeu a corda contra a beira afiada do vidro
123
e comeou a erguer e baixar as mos. O vidro tambm cortava seus
pulsos e podia sentir o sangue quente escorrer.
Tinha uma pressa desesperada, com receio de que o estrangulador pudesse voltar a
qualquer momento. Finalmente soltou uma das mos, depois a outra. Desamarrou as
pernas e levantou-se. Tremia toda.
Respirou fundo. Estou livre, pensou. Encaminhou-se para a porta do apartamento.
Nesse instante a porta se abriu, e ela deparou com o estrangulador, que lhe
perguntou:
- Vai a algum lugar?
Sekio e o detetive Blake estavam no corredor, diante da porta do apartamento de
Akiko. Sekio examinou a fechadura.
- H alguns arranhes, o que indica que algum arrombou a porta.
Ele tirou uma gazua do bolso.
- O que vai fazer? - perguntou o detetive Blake.
- Vamos entrar.
- No podemos. No temos um mandado judicial. Teremos de ir  chefatura para
pedir.
- No h tempo.
Sekio recordou a maneira estranha como Akiko se comportara na noite anterior.
Parecia evidente que o estrangulador se encontrava ao seu lado. Ele abriu a porta
com a gazua e os dois entraram no apartamento.
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Tudo parecia normal. No havia sinal de luta em parte alguma. Sekio deu uma
olhada no quarto. A cama no fora desfeita.
- Ela no passou a noite aqui - comentou ele. Foram para o ateli. Sekio
parou na porta, aturdido.
A cabea do estrangulador estava no cho, fragmentada em vrios pedaos. O
detetive Blake tambm se mostrava espantado.
- Por que ela faria isso?
- No foi ela - disse Sekio.
- Ento quem foi?
- O estrangulador.
Sekio teve certeza de que o estrangulador estava no apartamento quando ali
voltara, depois de cuidar do acidente. Que idiota eu fui!, pensou ele. Deveria
ter percebido que havia algo errado. Akiko ainda estaria viva? E foi ento que
Sekio se lembrou de uma coisa. No chovera na noite anterior, e o
estrangulador s matava na chuva.
Ele pegou o telefone e discou.
- Para quem est ligando? - perguntou o detetive Blake.
- Para o Servio de Meteorologia. Uma voz gravada informou pelo telefone:
- A previso para esta noite  de oitenta por cento de possibilidade de chuva.
Haver ventos soprando de nordeste...
126
Sekio desligou. Ia chover naquela noite. Se no a encontrasse antes, Akiko
morreria.
Sekio foi at os pedaos de argila espalhados pelo cho. Estudou-os por um
momento, antes de pedir:
- Veja se h alguma sacola no apartamento.
- Uma sacola?
- Isso mesmo. Vamos levar os fragmentos da cabea de argila para a Scotland
Yard.
Akiko foi levada de volta ao armrio. Mas desta vez Alan usou uma corda mais
grossa, amarrando-a na cadeira to apertada que ela teve vontade de gritar. S
que no podia por causa da mordaa na boca.
- Foi uma garota impertinente, e por isso ter de ser castigada - disse Alan.
Levantou a corda que usaria para estrangul-la.
- Lembra qual foi a sensao disto em torno de seu pescoo? Pois saiba que
vai sentir de novo. Mas desta vez no acontecer nada para nos interromper. E
nem precisa se dar ao trabalho de tentar escapar. No vou mais deix-la
sozinha no apartamento.
Na Scotland Yard, trs peritos ocuparam-se em montar os fragmentos da
cabea de argila.
- Ele no fez um bom trabalho ao destru-la - comentou um dos peritos. -
Os fragmentos no se estilhaaram e a reconstituio ser fcil.
127
Havia algumas rachaduras quando terminaram de mont-la, mas era uma boa
semelhana.
- E agora? - indagou o detetive Blake.
- Pegue uma cmera e tire uma foto. Quero que faa uma centena de cpias o mais
depressa possvel.
- Certo.
O prprio Sekio levou a primeira cpia  galeria do Sr. Yohiro.
- Este  o reprter que esteve aqui ontem?
- , sim.
Sekio olhou para o relgio. Eram cinco horas da tarde. Restava-lhe pouco tempo
antes que escurecesse, comeasse a chover... e ento Akiko morreria.
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Captulo Doze
Akiko sabia que ia morrer. Continuava sentada no armrio escuro, amordaada e
amarrada, incapaz de se mexer. Sequer podia tentar escapar porque o estrangulador
permanecia no cmodo ao lado.
O que ele est esperando?, especulou Akiko. Ficaria ainda mais apavorada se
soubesse que ele esperava a chuva cair.
E faltava pouco tempo para isso.
A maior caada humana em Londres fora desencadeada. Sekio mandara fazer uma
centena de cpias da cabea do estrangulador e guardas e detetives circulavam pelas
ruas de Whitechapel, mostrando a foto aos moradores, na esperana de que algum
pudesse identific-lo.
Sekio tivera uma reunio com o inspetor West, que lhe perguntara:
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- No acha que devemos mostrar essa foto por toda Londres? O que o faz ter
tanta certeza de que vamos encontr-lo em Whitechapel?
- Todas as vtimas foram assassinadas ali - dissera Sekio, obstinado. -
Estou absolutamente convencido de que ele as seleciona nos supermercados do
bairro.
Ele queria logo encerrar a reunio, a fim de poder participar tambm da busca
em Whitechapel. Sabia que Akiko estava em poder do estrangulador e no
poderia suportar se acontecesse alguma coisa a ela.
- Muito bem - dissera o inspetor West -, eu lhe darei todos os homens de
que precisa. Descubra-o antes que ele torne a matar.
E assim comeara a caada humana.
Sekio dividiu o bairro em sees, e cada homem foi encarregado de investigar
uma rea diferente. Um detetive entrou numa loja de departamentos e mostrou
a foto do assassino ao gerente.
- Estamos procurando por este homem - disse o detetive. - J o viu alguma vez?
O gerente examinou a foto e balanou a cabea.
- No.
- Importa-se que eu mostre a foto a seus funcionarios?
- Claro que no.
Nenhum deles pde identificar o homem.
Os policiais entraram em farmcias, barbearias, mercearias e lojas de ferragens.
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Ningum jamais vira o homem da foto. O
detetive Blake comentou com Sekio:
- A situao no  nada boa, sargento. No descobrimos nenhuma pista.
Talvez o inspetor West tenha razo. O homem mora em outro bairro, e s vem
aqui para pegar suas vtimas.
- No acredito nessa possibilidade-insistiu Sekio. - Tenho um forte
pressentimento de que ele vive mesmo por aqui, em algum lugar.
Sekio olhou para o cu, foi at uma cabine telefnica e discou.
- Para quem est ligando?
- Para o Servio de Meteorologia. Uma voz gravada disse pelo telefone:
- ...e os ventos sopram de nordeste, com uma velocidade de quinze
quilmetros horrios. Uma rea de alta presso aproxima-se pela costa e
espera-se uma chuva intensa. A temperatura ...
Sekio desligou.
- Vai chover - anunciou ele ao detetive Blake. - Diga aos homens para se
apressar.
Em seu apartamento, o estrangulador olhava pela janela, estudando o cu.
Nuvens escuras acumulavam-se. Daqui a pouco, pensou ele, feliz. A chuva no
deve demorar.
Pensou na mulher trancada no armrio - e sorriu. Muito em breve ela estaria
morta.
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Foi Sekio quem encontrou algum que pde identificar Alan Simpson. O vendedor
da mercearia onde o estrangulador fazia suas compras disse:
- Claro que o conheo. Ele vem sempre aqui. Sekio sentiu o corao disparar.
- Sabe seu nome?
- No, mas sei que ele mora aqui por perto.
- Como pode saber?
- Um dia ele comprou muitas coisas e perguntei se precisava de ajuda para carreg-las
at a casa dele. Respondeu que no, que morava aqui perto.
Dois minutos depois, Sekio falava pelo transmissor da polcia:
- Mande que todos os homens no caso se desloquem imediatamente para esta rea.
- Ele deu o endereo. - Quero que verifiquem todos os prdios de apartamentos
num raio de quatro quilmetros. E depressa!
Os policiais foram de porta em porta, mostrando a foto aos moradores.
- J viu este homem antes?
- No. Quem  ele?
- J viu este homem antes?
- Parece muito com meu falecido marido.
- Seu falecido marido?
- Isso mesmo. Ele morreu h dez anos...
- J viu este homem antes?
- No. Por que quer saber?
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E, de repente, um golpe de sorte.
- J viu este homem antes?
- Claro. Ele mora neste quarteiro.
Dois minutos depois, o prprio Sekio estava falando com a moradora.
- Disse ao guarda que sabia quem  este homem, madame?
- No sei o seu nome, mas sempre passava por ele. No o tenho visto ultimamente.
Ele mora naquele prdio no outro lado da rua.
Sekio atravessou a rua e entrou no prdio indicado. O administrador indagou:
- O que deseja?
Sekio mostrou a foto do estrangulador.
- Conhece este homem?
- Conheo.  Alan Simpson, um dos inquilinos.
- Ele mora aqui?
- Morava. Despejei-o h algumas semanas. Sekio ficou atordoado.
- O qu?
- Ele vinha agindo de uma maneira muito esquisita. No gosto de inquilinos assim,
e por isso lhe disse que fosse embora.
- Sabe para onde ele se mudou? O administrador deu de ombros.
- No. Um caminho de mudana levou seus mveis e nunca mais o vi desde
ento.
Sekio pensou depressa.
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- Um caminho de mudana? Viu o nome da companhia?
- No. Para dizer a verdade, eu no estava interessado. Por que o procura?
Ele cometeu algum crime?
Os crimes mais terrveis que algum poderia cometer, pensou Sekio.
Meia dzia de policiais entraram em ao pelo telefone, ligando para todas as
companhias de mudanas da rea. Acertaram no alvo na sexta ligao.
- Levamos a mudana de um homem desse endereo h cerca de trs
semanas.
- Tem o endereo para onde foi a mudana? - perguntou Sekio.
- Claro.
Ele deu o endereo a Sekio.
Comeou a chover. Alan Simpson estava pronto. Inclinou a cabea pela janela
e sentiu a chuva deliciosa no rosto. Agora podia fazer o que Deus queria
que ele fizesse. Mandaria outra alma inqua para o inferno.
Alan foi at o armrio e abriu a porta. Akiko continuava na cadeira, fazendo um
esforo para se livrar das cordas. Alan sorriu.
- No precisa se debater mais. Vou solt-la.
Por um instante, os olhos de Akiko se encheram de esperana. Depois ela
percebeu a expresso do estrangulador e compreendeu que estava perdida.
O homem era louco.
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- Vou puni-la por tentar me entregar  polcia - acrescentou Alan. -  uma
garota impertinente. Sabe disso, no?
Akiko tentou responder, mas a mordaa na boca a impedia de falar qualquer
coisa.
-  isso mesmo - continuou Alan. - E sabe o que fazemos com garotas
impertinentes? Vai descobrir.
Ele foi para a cozinha, abriu as portas dos armrios e encheu uma bolsa de
compras com mercadorias das prateleiras. Tudo tinha de ser exatamente como
ocorrera com as outras mulheres que matara. Akiko teria de carregar uma bolsa
de compras ao morrer. A nica diferena  que ele estaria com uma faca em sua
garganta, para evitar que ela escapasse, e depois a estrangularia.
Alan terminou de encher a bolsa e foi pegar o guarda-chuva. Tudo deve ser
exatamente igual s outras vezes.
- Tenho o endereo onde ele mora - disse Sekio.
- E se ele no estiver no apartamento?-perguntou o detetive Blake.
Sekio j pensara nisso. Calculava que o estrangulador manteria Akiko como
refm no apartamento. Se estivesse enganado, Akiko morreria.
-  a nossa nica chance - disse ele. - Vamos embora!
Entraram no carro da polcia e Sekio ordenou ao motorista:
135
- Depressa!
O motorista virou a chave na ignio. A bateria pifara.
- Muito bem, vamos dar um pequeno passeio - disse Alan a Akiko.
Akiko sabia o que isso significava. Sacudiu a cabea.
- No tente resistir - murmurou Alan. - No vai querer que eu corte essa linda garganta.
Ele comprimiu a faca contra a garganta de Akiko, que ficou imvel
- Assim  melhor. Agora, vou desamarr-la. Continuar sentada at eu mandar
que levante. Entendido?
Akiko no respondeu. O estrangulador tornou a comprimir a faca contra a garganta
dela, que acenou com a cabea.
-  assim que uma boa menina se comporta. Alan usou a faca afiada para cortar as
cordas.
Em menos de um minuto, Akiko estava livre. Tentou se levantar mas sentiu uma
vertigem. Levou a mo  testa e balbuciou:
- Acho que vou desmaiar.
- Se desmaiar, eu amatarei aqui mesmo.
No queria mat-la no apartamento. Tinha de ser l fora, a fim de que a chuva a
purificasse.
- Vamos embora!
Alan pegou a bolsa com as compras e estendeu-a para os braos de Akiko.
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- O que voc...?
- Cale a boca e faa o que eu mandar! Fingiremos que fez essas compras num
supermercado, descobriu que estava chovendo na hora de sair e no tinha um
guarda-chuva. Entendeu?
Akiko balanou a cabea, apavorada demais para falar.
- E foi ento que me ofereci para acompanh-la at em casa, sob a proteo do
meu guarda-chuva-explicou ele.
Levou Akiko at a porta.
- Vamos sair agora. Se tentar gritar, cortarei sua garganta. Entendeu?
Akiko tentou falar, mas a garganta estava completamente ressequida. O apartamento
de Alan ficava no segundo andar do prdio, e ele a segurou pelo brao, enquanto
desciam a escada. A outra mo empunhava a faca.
Akiko rezou para que encontrassem algum na escada. Algum que pudesse ajud-la.
Mas no havia ningum. Alcanaram a porta do prdio. Alan sorriu, ergueu o
guarda-chuva.
- Est vendo como sou um cavalheiro? Vou acompanh-la at em casa, com meu
guarda-chuva a proteg-la.
Ele  completamente louco, pensou Akiko. Que Deus me ajude! Mas no havia
ningum para socorr-la. A rua estava escura e deserta. Alan apertou-lhe o brao
com mais fora ainda e sairam para a chuva.
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Ele experimentava uma agradvel sensao. Todo o excitamento antigo ressurgia.
Sentia-se como Deus. Dentro de poucos minutos, acabaria com outra vida humana.
Era todo-poderoso. Sabia o quanto a polcia o procurava, mas ele era mais esperto.
Foram andando pela rua e ele avistou  frente um trecho na mais absoluta escurido.
Todos os lampies por perto haviam sido quebrados. Perfeito!, pensou Alan.
Akiko tentou andar mais devagar, mas ele empurrou-a para a frente. Sentia-se
ansioso pela emoo que tanto apreciava.
Para Akiko, era um pesadelo total. Revivia a cena terrvel que acontecera poucas
noites antes, quando ele a escoltara por outra rua escura e tentara estrangul-la. Um
acaso a salvara naquela ocasio, mas agora no haveria ningum para ajud-la.
A chuva tornava-se mais intensa agora. Ela sentiu o guarda-chuva sair de cima de
sua cabea, quando Alan se ps um passo atrs. E depois sentiu uma cutucada nas
costas, largou a bolsa com as compras. Um instante depois, uma corda envolveu-lhe
o pescoo. Alan a fitou, sorrindo.
Nesse momento, meia dzia de faris iluminaram a cena. Estavam cercados por
carros da polcia, estacionados ao longo da rua. Alan virou a cabea, surpreso.
- O qu...?
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- Largue a corda e a faca! - ordenou Sekio. - Agora!
Alan olhou ao redor, atordoado. Podia divisar os vultos de meia dzia de policiais
avanando em sua direo. Como fora descoberto?
- Mandei largar a corda e a faca! - disse Sekio. Iam tentar priv-lo de sua vtima.
Mas ele no
permitiria. Faria com que ela pagasse pelo que fizera. Era sua me e tinha de morrer.
Alan ergueu a faca, e gritou:
- Morra!
Um tiro foi disparado nesse instante, e Alan caiu. Sekio baixou a arma e correu para
Akiko.
- Voc est bem? Ela abraou-o.
- Graas a Deus que voc est aqui! - Akiko desatou a chorar.
Sekio abaixou-se, verificou o pulso de Alan. No havia mais qualquer pulsao. Ele
virou-se para Akiko:
- Lamento no ter vindo mais cedo.
Quando o carro da polcia no pegara, Sekio fizera sinal para um carro que passava
pela rua e mandara que o homem o levasse ao endereo de Alan. Usara o transmissor
para ordenar que outros carros da polcia convergissem para o local. Determinara
que estacionassem ao longo da rua e que todos ficassem quietos.
Sekio se encontrava no outro lado da rua quando Akiko e Alan deixaram o prdio e
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esperara at poder atirar no estrangulador sem a possibilidade de atingir Akiko.
Agora, tudo acabara.
Na delegacia, Sekio foi tratado como um heri. O inspetor West e todos os outros
policiais deram-lhe os parabns por seu excelente desempenho.
- Eu gostaria que continuasse a trabalhar comigo - declarou o inspetor.
- Muito obrigado, senhor.
Ele era muito jovem para receber tamanha honra.
- Antes que eu me esquea - acrescentou o inspetor West -, minha esposa e eu
estamos oferecendo um pequeno jantar esta noite. Se estiver livre, eu gostaria que
nos desse o prazer de sua companhia.
-  muita gentileza sua, senhor, mas j tenho um compromisso.
- Ahn... talvez em outra ocasio.
- Claro, senhor.
O compromisso de Sekio era com Akiko. Jantariam juntos naquela noite, e Sekio
sabia, no fundo do corao, que isso continuaria a acontecer todas as noites, pelo
resto de suas vidas.
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